Deutsche mark, O marco assassino.

Vicente Clemente

Clemens

29/08/13 - 21:10

Nasci a 12 de junho de 1958, portanto tenho completos 35 anos. (Em 1993), Tenho mais ou menos 1,20m.

Atualmente moro no bairro Borboleta, logo no incio do bairro. H pouco mais de um ms, exatamente no dia 17 de novembro de 1993, fui atropelado por um carro em desgoverno. Atirado ao cho, sofri escoriaes e ferido encontro-me at hoje. As pessoas passam, olham e alguns de curiosidade at chegam perto para avaliar meu sofrimento. Outros, nem isso, passam sem perceber que existo.

Fui batizado em 10 de agosto de 1958 e nesse dia a festa foi de arromba. Vieram delegaes de vrias partes da cidade, do estado, do Brasil e at do exterior para festejar com Juiz de Fora minha chegada. Meus padrinhos foram nada mais que S.A. Imperial D.Pedro de Orleans Bragana, o herdeiro do trono brasileiro e o cnsul alemo em exerccio poca.

O prefeito de Juiz de Fora era o saudoso Ademar Resende de Andrade, que anfitreou a solenidade do meu batismo. Nasci de um bloco de granito negro que foi trabalhado em forma triangular e em mim incrustadas trs placas de bronze. Numa o nome das autoridades legislativas e executivas da poca da imigrao (1858, na outra as mesmas autoridades de ento (1958) e noutra, num emblema lembrando as indstrias da cidade, os seguintes dizeres: Centenrio da colnia alem D.Pedro II 1858 1958 12 de junho.

Sim, sou o marco da pedra que foi erigido originariamente na Praa Agassiz, desta cidade e solenemente inaugurado do modo acima descrito. L, permaneci por muito tempo, no meio da praa onde pessoas transitavam e crianas brincavam alegremente minha volta, at que um dia ...

Talvez por eroso, ou por desgaste em minhas bases, fui causador de uma morte. Um jovem foi esmagado por mim, aps ter sido empurrado por um seu companheiro. Fui processado, julgado e condenado. Minha pena foi cumprida na reserva do Poo DAntas. L, abandonado e esquecido, com mato e terras minha volta, fiquei interditado por muito tempo ...

At que, por ocasio da IV FESTA ALEM, em setembro de 1990, reassumida aps 15 (quinze) anos pelos descendentes dos imigrantes alems residentes no bairro Borboleta fui lembrado e tirado do ostracismo.

Aps indigentes esforos junto administrao municipal, que dizia no ser possvel reerguer-me novamente em praa pblica, j que era ru culpado e condenado, e, mais ainda, prova de um crime, conseguiu-se, com a ajuda do vereador do bairro, Jos Mauro Krepk, tambm descendente de colonos imigrantes, como este articulista, levar-me at o ponto geogrfico-histrico onde uma bifurcao marca o incio da Colnia de Baixo (Borboleta) e a estrada que levava e leva at as regies da Colnia de Cima (So Pedro) e l, fui novamente erigido numa pracinha construda pela Prefeitura especialmente para receber-me. (Atual Praa do Imigrante Alemo)

Para evitar-se novamente acidentes como o da Praa Agassiz, quando fui condenado por assassinato, fui empalado, isto , perfurado com uma broca at o meio, e fui assentado sobre um ferro chumbado ao cho.

Nem isso foi suficiente para evitar minha queda, devido ao forte impacto do automvel desgovernado.

Hoje, ainda estou na horizontal, deitado sobre a grama e desavergonhadamente exposta a minha parte baixa, mostrando o ferro entortado saindo de meu interior. muito triste tal cena.

Mas, apesar de tudo, estou satisfeito. Impedi outras mortes. Tal veculo desgovernado, no tivesse me atropelado, teria feito vtimas fatais, j que pela rua passavam algumas crianas caminho da Escola, naquele exato momento. Passando por mim, certamente atingiria o grupo de meninos.

As autoridades municipais sabem do acontecido? Claro que sim. Primeiro avisou-me e foram pedidas providncias ao Departamento de Patrimnio Municipal (afinal, sou parte do patrimnio cultural de Juiz de Fora, ou no sou?), aps a SETTRA comunicado o acidente; da passou-se FUNALFA, Empav e SMO. At hoje s promessas, isso por parte da SMO j que as demais reparties se dizem incompetentes in casu.

E olha que o bairro Borboleta tem duas Sociedades Culturais, o Centro Folclrico Teuto-Brasileiro e a Associao Cultural Brasil-Alemanha, e ainda a SPM e ainda um vereador descendente de teutnicos. Ser que nem assim as autoridades no tm sensibilidade para resolver meu problema? Estou ferido, com escoriaes, sujo de terra ... Seria muito bom eu no ficar como o Brasil ... Deitado eternamente em bero esplndido ... minha posio galhardamente deve ser na vertical, no na horizontal com minhas partes baixas expostas ao pblico.

Em junho de 2.009, fui atacado na surdina da noite. Malfeitores, utilizando ferramentas poderosas, destacaram de meu corpo uma das placas de bronze, a mais trabalhada artisticamente, levando-a e deixando extensa cicatriz exposta. As demais placas, que ostentam a relao dos vereadores de 1858 e 1958 respectivamente, tambm tentaram levar, mas, no conseguiram, somente deixaram marcas das tentativas.


triste a sina de um bem pblico. Afinal, o que pblico de todos ou no de ningum, infelizmente.

Um povo que no se preocupa com seu patrimnio cultural, que no cultua seu passado, que futuro espera?


VICENTE DE PAULO CLEMENTE

Bisneto do imigrante alemo Phillip Clemens

Ainda no comentado.