Dirio do Imigrante

Nilo Franck

Geral

29/08/13 - 21:10

Parte 1:

21/04/1858 - Sou Heinrich Gerheim, da Aldeia de Wildesheim, tenho 54 anos e com minha esposa Christiane e meus seis filhos, Heinrich, Philip, Peter, Margaretha, Jacob e Johann, estamos partindo do porto de Hamburgo, bordo do Veleiro Tell, sob o comando do Capito R.W.Kock. O navio parece ser forte e confivel e j testado por diversas viagens pelos mares afora. O total de passageiros da embarcao de 235, todos alemes, como ns, de acordo com a lista em poder do capito, datada de 05/ 04/ 1858. Nosso destino a cidade do Rio de Janeiro, em cujo porto desembarcaremos, com a Graa de Deus, dentro de 35 dias aproximadamente, de acordo com os clculos da Companhia.

Nossa moral est elevada, apesar dos receios de uma viagem to longa e para o Brasil, Pas que desconhecemos, mas que esperamos l chegar com sade e nos estabelecermos na Colnia D. Pedro II, na cidade de Juiz de Fora, Estado de Minas Gerais.


Parte 2:

Hoje dia 28 de abril de 1858 e estou no porto de Hamburgo, norte da Alemanha, j bordo do veleiro RHEIN, com minha famlia e mais 183 passageiros. Nosso destino o Brasil, longe, muito longe, l na Amrica do Sul.

Meu nome EMIL SCHRDER, sou agricultor, tenho 31 anos e me acompanham, minha esposa Maria (43 anos) e os filhos Heinrich e Christian (gmeos com 14 anos), Carl (07 anos), Maria (06 anos), Dorotha (03 anos e o beb August (08 meses). Nossa Aldeia Pln, pertencente a Holstein, lugarejo mais ao norte, no muito distante de Hamburgo e nossa viagem no durou tanto assim, por terra. Em um dia e meio, desde nossa sada de casa, j estvamos no porto, aguardando as formalidades de embarque. O capito de nosso navio o Sr. W. Boster, que j nos orientou de como nos portarmos bordo e de sua experincia de viagens pelos mares do mundo. Estamos muito tensos, pois que o corre-corre foi demais. Mas, agora, uma lufada de vento estufou as velas e l vamos ns, deslizando pelas tranqilas guas do rio Elba em direo ao Mar do Norte e de l, pelo longo Oceano Atlntico at ao porto do Rio de Janeiro, no Brasil, onde seremos encaminhados uma Colnia, na cidade de Juiz de Fora, no Estado de Minas Gerais. isso que nos informaram quando assinamos contrato com uma empresa brasileira, a Cia. Unio e Indstria.

"Que Deus nos ajude e nos acompanhe".


Parte 3:

... Hoje dia 15 de maio de 1858 e estou no Porto de Hamburgo com minha famlia. Sou Joseph KELMER e minha esposa Anna Brbara e os filhos Joseph, Genoveva, Alois, Klara e Peter Paul. Somos Tiroleses da Aldeia de Volders. Juntamente com mais 280 passageiros, estamos por embarcar no Veleiro GUNDELA que sob o comando do Capito Eikmann nos levar at ao Brasil.

No sabemos quase nada sobre nosso destino, a Colnia D. Pedro II (nome dado para homenagear o Imperador brasileiro), somente nos informaram que l do outro lado do mundo e que o clima bom, sem muitas alteraes e que no teremos muitas dificuldades, j que o fundador da cidade onde est localizada a nossa Colnia tambm um alemo, que se deu bem, lutando nas guerras brasileiras e se estabelecendo no local, casando-se com a filha de um fazendeiro ricao.

Vejo que tambm dentre os viajantes, a famlia dos KIRCHMAIR tambm do Tyrol, da Aldeia de Weer est includa com seus sete membros, Georg, o patriarca, vivo e os filhos Andras, Maria, Franz, Johann, Martin e o pequeno Georg.

Rezamos e esperamos que a nossa viagem seja boa e cheguemos ao nosso destino com boa sade


Parte 4:

Hoje, 21 de maio de 1858, uma quinta-feira de sol forte primaveril (o inverno j se foi) estou bordo do Veleiro GESSNER, no porto de Hamburgo. Sou JOHANN FRANK e estou com minha famlia, esposa Thekla e os filhos Johann, Martin, Theodor e Josepha, deixando a Alemanha. A situao estava se tornando cada dia mais difcil para todos ns. As oportunidades cada vez mais escassas em Oberscheidenshal (minha Aldeia) e arredores, na cidade de Baden. Os filhos crescendo e sem perspectivas para o futuro deles. Ento, com pesar, mas com muita esperana de dias melhores estamos partindo em busca de melhores dias.

O capito de nossa embarcao o Sr. Lankenau, que nos levar atravs dos mares, com uma carga de 249 passageiros e mais a tripulao.

Vejo que tambm, dentre outras famlias, os DILLY, numerosa famlia de oito membros, de Gaubkelheim, aldeia da regio do Hessen, estar conosco nessa longa viagem. Velas ao vento e l vamos ns, com a Graa de Deus.


Parte 5:

Sou JoannesCLEMENS, tenho 43 anos de idade, sou casado com Anna Maria Stenner Clemens, tambm da mesma idade e fomos abenoados com nove filhos, Philipp, 19 anos (bisav deste relator), Margaretha, 18, Mathias, 16, Markus, 14, Jacob, 11, Heinrich, 8, Anton e Johann, gmeos de 04 e o pequeno Joseph com 09 meses de idade.

Samos de nossa Aldeia, Bldesheim, l no Hessen Darmstadt, onde morvamos, deixando tudo para trs, exceto nossas lembranas, que trazemos conosco. Estamos no Porto de Hamburgo, norte da Alemanha, aguardando ordem para embarcar no navio veleiro Osnabrck (que j est l ao largo, ancorado nas guas frias do Rio Elba), neste belo dia 05 de junho de 1858.

Fomos contratados pelo Imprio Brasileiro, por intermdio de uma agncia do Dr. F.Schmidt, de Hamburgo, que mandou seus funcionrios por toda a Alemanha para falar sobre as vantagens da imigrao para o Brasil. Ofereciam passagem subsidiada, (desde a casa do candidato at a nova casa na Colnia dos Alemes, na cidade de Juiz de Fora, Provncia de Minas Gerais, no Brasil) mais terras para plantar, sementes, ferramentas, acomodaes e uma ajuda financeira por um ano. Tudo constando em um contrato escrito no idioma alemo e portugus que ser assinado pelo candidato, Dr. Schmidt, o armador hamburgus Jacques Donati, o representante brasileiro da Companhia Unio e Indstria e o representante diplomtico alemo.

Tudo certo e combinado, j assinada toda a documentao, bagagem toda arrumada em caixas e caixotes numerados e identificados com os nomes das famlias, s estamos aguardando nossa vez de subir na "chata", uma pequena embarcao como uma prancha que vai rebocada at ao navio ao largo.

J notei que tambm viajaro conosco o casal Roth, Valentim e Maria, da aldeia de Dromersheim, a famlia dos Haber, Anton, Brbara, Joseph, Kaspar, Jacob e Juliane. Corajoso esse Anton: com 60 anos e a famlia criada, topar essa parada to difcil. Tambm os Hauck, o casal Friedrich e Anna, ambos com 38 anos e mais cinco filhos, o menor deles com dois anos, a pequena Catharina.

Enfim, estaremos bem unidos nessa travessia dos mares, at ao porto do Rio de Janeiro, pois as famlias inscritas formam um contingente de 224 pessoas, mais o Capito G. Lange e sua tripulao. Disseram para no temermos, pois j partiram dali, quatro veleiros antes de ns, todos de imigrantes alemes para a mesma Colnia, que soube tinha o nome de D.Pedro II, uma homenagem ao imperador brasileiro.

Antes de embarcar, pois ficaram para o fim, a famlia de Johannes Clemens, dando-se as mos, rezaram e agradeceram pela oportunidade de uma nova vida num pas to distante, mas do qual ouviram maravilhas.

Pelo Rio Elba, em direo ao Mar do Norte, depois alcanando as guas do Oceano Atlntico haveriam de fazer uma boa viagem e chegaram ao destino, unidos, com sade e prontos para comear de novo.


Parte 6:

Hoje, 25 de maio de 1858, uma sexta-feira de tempo nublado e uma fina chuva que teima em cair, molhando-nos a todos e as nossas bagagens. Estamos descendo pela rampa do navio veleiro TELL, no porto do Rio de Janeiro, no Brasil, que partiu l da Alemanha, do porto de Hamburgo h exatos 34 dias. Lembram-se de mim? Sou o lavrador Heinrich GERHEIM, que com minha famlia, esposa e seis filhos viajamos na companhia de outras famlias de imigrantes alemes, a maioria do Estado de Hessen Darmastadt, inclusive os SCORALICK, da Aldeia de Hackenheim, com quem fizemos amizade durante a travessia. Nicolaus, sua esposa Juliane, os filhos Ferdinand, Brbara, Margaretha, Jacob, Anna Maria, Nicolaus, Balthasar e o beb Nicolaus, de trs meses de vida.

Tambm os ALBERT de Weisenau estavam conosco, o patriarca Anton, 48 anos, (agricultor) sua esposa Anna Maria de 39 e os filhos Kaspar, Jacob, Joseph e Anna Maria, de 9 anos de idade.

Apesar das grandes dificuldades de adaptao das pessoas s acomodaes da embarcao, enjos freqentes e a febre tifo que atingiu grande parte dos imigrantes, causando dois bitos, que causou profunda consternao geral, sendo os corpos sepultados nas profundas guas do oceano Atlntico, pusemos os ps em terras brasileiras em boas condies de sade.

Como o capitoKock previra, o veleiro foi valente e suportou com galhardia as intempries da viagem, vencendo a distncia to longa, com ventos favorveis, no tempo previsto.

Agora somente nos resta aguardar a chegada da nossa bagagem e ordens de embarcar em direo ao nosso destino final, a Colnia Imperial D. Pedro II em Juiz de Fora, Minas Gerais.


Parte 7:

25 de junho de 1858 chegou ao Rio de Janeiro o veleiro RHEIN que havia partido de Hamburgo dia 28 de abril, portanto viajou por 59 dias pelas guas dos oceanos, nem sempre amistosas. Sou EMIL SCHRDER que com minha famlia passamos por maus pedaos, mas, conhecemos muita gente boa nessa aventura, como os BERG, de Hockenheim, Michael e Anna e os filhos Jacob, Elisabeth, Kaspar, Wilhelmm, Phillip e Karl e mais a famlia KREUTSFELDT, Hans e Magdalena e os filhos Anna, Sophie, Christian, Johann e Maria, de Boksee, tambm do Holstein, que muito nos ajudaram e com os quais fizemos verdadeira amizade.

O capito Boster e seus ajudantes j estavam em terra e tudo faziam para desembaraar as malas e caixas dos seus passageiros. Ao final da tarde todos j estavam prontos para vistoria mdica e tratamento para os mais necessitados, principalmente as criancinhas e os mais idosos.


Parte 8:

No dia 26 de julho de 1858 atracou no porto do Rio de Janeiro, depois de uma sofrida e talvez a mais longa viagem, desde o porto de Hamburgo, o Navio Veleiro GUNDELA. Sobre tal odissia nos conta um dos passageiros, Alois Eiterer, de Untermeitingem, do Tirol, de 27 anos, que veio com sua mulher Kreszenz de 23 anos, e escreveu uma carta contando a viagem para seus amigos na Alemanha, publicada num jornal local, de sua terra:

- A viagem de Hamburgo at o Rio de Janeiro durou 76 dias. O navio Gundela transportava quase 300 passageiros. A comida era boa: arroz, feijo, alguns dias mesa livre de carnes defumadas, que naturalmente no princpio era um sucesso e um prazer. De manh, caf, tarde sopa ou ch. Mas a gua era muito ruim. Nos atormentavam as pulgas e assim tambm o aumento de temperatura e de repente um frio de 09 graus. O calor era de 29 graus sombra e o enjo que atingia a quase todos. Eu fiquei enjoado por trs semanas e a maioria das crianas de um a doze anos. Enfim, um ms de bonana e tranqilidade. Durante a crise morreram sete crianas e dois adultos, sendo que o primeiro bito, de Johann Georg Steinletner, de 37 anos, se deu quase na linha do Equador e o ltimo, de Jacob Larcher, (um menino de 5 anos) j em guas brasileiras, com o Po de Acar vista. Esse foi sepultado em terra firme.


Parte 9:

29 de julho de 1858 foi o dia em que chegou ao Brasil o veleiro GESSNER , comandado pelo capito Lankenau, numa viagem que durou 69 dias desde Hamburgo, na Alemanha. Sou Johann FRANK, patriarca da famlia, que muito sofreu com a perda do nosso Martin, de 13 anos, que faleceu em alto mar, durante a travessia. Foi acometido de uma febre tamanha, que no durou nem trs dias e foi sepultado, como de praxe, nas guas profundas do Atlntico. Os membros da famlia Dilly, Conrad, 59 anos e sua esposa Catharina, 55 anos e os filhos Adam, 28, Valentim 25, Jacob 24, Anna Maria 21 e Ludwig 16 anos, foram os que mais nos reconfortaram naqueles momentos difceis. Outros tambm tiveram perdas, mas, todos tiveram muito apoio e assistncia das demais famlias que sofreram junto os momentos difceis. Enfim, comearam a nos desembarcar e olhar firme no horizonte brasileiro era a ordem geral e uma promessa de uma nova vida no lugar para onde seriam encaminhados, na cidade de Juiz de Fora, Provncia de Minas Gerais.


Parte 10:

O ltimo navio veleiro a desembarcar grande contingente de imigrantes no porto do Rio de Janeiro, foi o OSNABRCK, no dia 04 de agosto de 1858 e trazia bordo, a famlia dos CLEMENS, alm de inmeras outras, como os ROTH - HABER, HAUCK, depois de 59 dias de navegao pelos mares europeus e sulamericanos.

O capito Lange foi merecedor de grande ovao por parte dos passageiros, pela tranqilidade e firmeza com que tratou sua tripulao, trazendo a embarcao at seu destino, apesar das intempries por que passou.

Agora, como dizem ser praxe, ficaremos todos em quarentena na rea do porto, visto as doenas porque padeceram grande parte dos imigrantes, que seriam medicados e aps, enviados para seu destino final, a Colnia Imperial D. Pedro II em Juiz de Fora.


Parte 11:

As levas de imigrantes alemes, aps passarem por uma quarentena no Porto do Rio de Janeiro, eram embarcados, com todas suas bagagens, para a cidade de Juiz de Fora, passando por Petrpolis, cidade que lhes era j bastante conhecida, por correspondncias de amigos que anteriormente, anos antes para l vieram, com o mesmo escopo de colonizao.

Sobre essas passagens, nos conta o prezado Mestre Francisco de Vasconcelos, um Petropolitano, a quem devemos imensa gratido, que garimpou no jornal "O PARAYBA", que funcionou em Petrpolis de 02/12/1857 a dezembro de 1859, quando encerrou suas atividades. Vamos a duas reportagens:

O Parayba de n 60 - 1 de julho de 1858:

- No h ainda um ms que a populao de Petrpolis viu com jbilo seguirem seu destino, 232 colonos alemes de ambos os sexos, que a Cia.Unio e Indstria importara para a Colnia de D. Pedro II, que a mesma Companhia fundou nas imediaes da cidade de Paraibuna.

- Chegaram ultimamente de Hamburgo a bordo da Barca Rhein, mais 182 colonos alemes, tambm de ambos os sexos, para a mesma Companhia, segundo noticiamos em nosso ltimo nmero (chegaram no sbado, 26 de junho, conforme "O Parayba" de 27 do mesmo ms, n 59).

- Esses colonos seguiram no dia 29 para a Colnia de D.Pedro II, isto , no mesmo dia em que 13 anos antes subiram a serra com destino Petrpolis os primeiros que vieram para a fundao desta florescente Colnia.

- Vimo-los passar, promiscuamente em carroas, com rosto alegre e expansivo e um resto deles, ou por no terem conduo, ou por assim o desejarem, seguiram p, quase em nmero de 100.

- E como se tivessem advinhado que esse dia era aniversrio da chegada a Petrpolis, dos seus compatriotas que os haviam precedido 13 anos antes, em sua imigrao para o Brasil, percorreram toda a Rua do Imperador, cantarolando em coro, cantigas de sua terra, com bandeiras improvisadas, presas aos canos de espingardas de caa, com grandes ramos que cortavam pela estrada e que brandiam no ar, com satisfao ntima, que at a beleza da tarde contribua para dar-lhes ao porem os ps no limiar de sua segunda Ptria.

- No seja nunca outra a sua disposio de nimo nos lavores a que se destinam; e possa a sua feliz sorte chegar ao conhecimento dos seus compatriotas que procuram outras plagas menos hospitaleiras e persuadi-los assim a procurar espontaneamente o Brasil, onde tudo lhes promete e garante maior soma de bens, que l onde escasseia o trabalho para tantos braos."


O Parayba de n 69 de 01/08/1858:

"Passaram no dia 28, por Petrpolis, 160 colonos dos 290 que chegaram de Hamburgo para a Companhia Unio e Indstria e no dia 29 passou o resto, com destino, todos, nova Colnia de Paraibuna.

Iam conversando alegremente entre si e pareciam contentes de terem emigrado para um Pas que em breve lhes proporcionar as vantagens que lhes faleciam em sua Ptria.

No sabemos se por acaso ou de propsito, todas as vezes que tm passado por aqui os colonos importados pela Companhia Unio e Indstria, um grupo deles, mais ou menos numeroso, dispensando a conduo em carroas segue sempre a p cantando festivas canes ptrias.

Os que passaram no dia 29 assim foram tambm, com os chapus ornados de flores e ramos verdes. Dir-se-ia que festejavam o 12 aniversrio natalcio da Princesa Imperial, assim como anteriormente festejaram os outros, o 13 aniversrio da fundao da Colnia de Petrpolis


Parte 12:

J havamos sado de Petrpolis pela manh e caminhamos at tardinha, bem devagar, degustando ainda os prazeres e emoes por que passamos, ao encontrarmos patrcios nossos nessa bela cidade do Rio de Janeiro, quando ento fizemos a parada diria para o pernoite. Colocamos as carroas em crculo e ao meio acendemos a fogueira costumeira, onde preparvamos nossas refeies e nos sentvamos para as conversas noturnas. Um alvoroo se formara na carroa dos Petermann. A esposa, grvida e que estava nos "ltimos dias" para o parto, se debatia em dores e as comadres j se revezavam nas toalhas e baldes de gua quente. Mais um pouco e uma menininha nascia. Era a primeira brasileirinha a nascer na nova Ptria. Todos batiam palmas quando ela foi erguida pelas mos do pai, apresentando-a aos companheiros de jornada. Certamente em homenagem ao Comendador Mariano Procpio, deram-lhe o nome de Marianna. A noite inteira foi de festa, com danas e vinho, tendo se esgotado um garrafo que haviam ganho em Petrpolis.


Parte 13:

Dia seguinte, ps na estrada, a cidade do Paraybuna, destino do grupo do veleiro Tell, ainda estava longe. Mais uma semana e j avistavam as casas da cidade, Pararam logo na entrada, se lavaram num riacho cristalino que desaguava no rio que dava o nome cidade, se vestiram com suas melhores roupas e assim engalanados, os homens com suas espingardas em bandoleiras ao ombro, enfeitadas com bandeirinhas de suas origens e pequenos arbustos arrancados s margens da estrada, desfilaram garbosos, cantando canes de sua Alemanha longnqua que deixaram para trs.

A curiosidade era mtua, os pequenos, ao verem os escravos negros, queriam toca-los para ver se saia tinta e os citadinos por sua vez, queriam conferir se os protestantes luteranos realmente tinham chifres, mas, nem uns, nem outros puderam confirmar suas suspeitas; eram gente normais e de aparncia bem salutar e amistosos.

A Cia. Unio e Indstria j havia construdo um grande acampamento, nas imediaes de uma ftida lagoa ( proximidades da atual Igreja de So Roque - Av. dos Andradas) onde os colonos se alojaram espera de seus lotes de terras.

Logo, logo, mais e mais imigrantes se juntavam aos primeiros e a situao estava se tornando perigosa.

A situao geral, de higiene e promiscuidade era quase insuportvel. O nmero de colonos aumentava muito rapidamente e as terras ainda no haviam sido divididas, ocasionando um atraso grande na locao dos colonos.

Para piorar, um surto de febre amarela, que fizera perder muitas vidas durante a travessia dos oceanos, reaparecera entre aquele povo.

Um hospital de emergncia foi construdo logo acima do morro (defronte a atual Igreja da Glria) ao qual os colonos logo apelidaram de Krankenhof, ou seja Ptio das Doenas. Mais uma taxa de dezenas de mortos foi cobrada aos colonos alemes e os corpos foram sepultados nas imediaes da lagoa, causando grande consternao tanto entre os colonos quanto aos habitantes de Juiz de Fora, que era assim chamada desde 1850, quando se emancipara da cidade de Barbacena.


Parte 14:

A Companhia Unio e Industria se esforava ao mximo para entregar aos colonos que contratara na Alemanha, seus "prazos" ou terras e casas para habitaes, conforme constava dos contratos assinados e avalizados pelo Imprio Brasileiro.

Enfim os "prazos" estavam demarcados e chamaram os representantes dos colonos para uma reunio e l, foram sorteados os primeiros dez terrenos. O primeiro, prazo n 1, da Nova Colnia Imperial D. Pedro II coube ao colono Friedrich Hauck e era localizado na Colnia de Baixo, atual bairro Borboleta, na atual Grota dos Lawall.

Pouco a pouco as famlias dos colonos foram deixando o grande acampamento e rumando para suas terras, onde a Companhia Unio e Indstria ainda lhes entregava um casal de porcos, um galo e duas galinhas, gatos e cachorros e ainda ferramentas para manuteno e mais um ano de vveres, mantimentos a serem retirados nos armazns da Companhia, durante um ano. Pelo contrato somente comeariam a pagar por tudo a partir do segundo ano de residncia no "prazo".

Enfim, alojados, os colonos iniciaram suas vidas nas terras brasileiras, sob um lema que aprenderam em sua terra natal e seguiam risca, progredindo sempre: ORA, TRABALHA E DEUS AJUDA!


Parte 15:

Hoje, decorridos 150 anos da chegada de nossos ancestrais, podemos agradecer com o corao repleto de amor e alegria, pelos belos exemplos de coragem, f e trabalho, que os conduziram utopia almejada: construir uma nova vida, numa nova terra, apesar da diferena de idioma, costumes e hbitos alimentares.

Enquanto os alemes de l do outro lado do mundo continuavam a lutar em guerras constantes, os alemes de c construam e ajudavam a desenvolver o progresso de uma nova cidade que os acolhera afetuosamente e na qual se inseriram gradualmente, deixando suas marcas indelevelmente na histria.


Fim

Ainda no comentado.