Nazismo em Juiz de Fora (1937-1942): Lenda ou realidade.

Nilo Franck

Geral

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Fabricador de instrumentos do trabalho, de habitaes, de culturas e sociedades, o homem tambm agente transformador da Histria. Mas qual ser o lugar do homem na Histria e o da Histria na vida do Homem?(Le Goff) [2]


E quem garante que a Histria carroa abandonada, numa beira de estrada ou numa estao inglria? A Histria um carro alegre cheio de um povo contente que atropela indiferente todo aquele que a negue(...) [3]




Este texto busca fazer uma sntese do trabalho Perigo Nazista em Juiz de Fora - O caso Viktor Schwaner (1935-1945) [4] . O processo analisado se refere ao lder religioso Viktor Schwaner, nascido na Alemanha na cidade de Kunzendorf em 21 de janeiro de 1906. No ano de 1932, Viktor chega em Juiz de Fora para exercer o seu pastorado na Comunidade Evanglica Alem.


A vinda de alemes para Juiz de Fora, no nos estranha, j que o ano de 1858 um marco de entrada alem na regio. Os alemes que vieram no sculo XIX para Juiz de Fora foram contratados pelo cafeicultor Mariano Procpio Ferreira Lage para trabalharem na construo da Rodovia Unio Indstria. Inaugurada no ano de 1861, contou com a presena de Pedro II na cidade por cinco dias. Os alemes que aqui chegaram, no ano da contratao se instalaram no local que recebeu o nome de Colnia D. Pedro II, estando separada em duas partes: a colnia agrcola, denominada de Colnia de So Pedro, e a colnia industrial que recebeu inicialmente o nome de Villagem e, posteriormente, Mariano Procpio. No meio do caminho posteriormente surgiu Borboleta. [5] Entre a dcada de 70 e 80 do sculo XIX ocorreram dois fatos aparentemente inesperados pelos alemes: as falncias da Cia. Unio e Indstria e da colnia agrcola D. Pedro II. Devido s necessidades materiais alguns imigrantes e descendentes foram forados a abandonarem a colnia e a migrarem para a zona urbana em busca de novos postos de trabalho. a partir deste panorama que percebemos, a criao de vrias entidades de origem alem. Foram criadas entre 1872 e 1921, sociedades de socorro mtuo, clubes esportivos como o Kegel Club, o Tunerchaft, club ginstico, e as associaes de cunho religioso como a Deutscher Kraken Unterstutzungs Verein. [6]


A Igreja Evanglica Alem, hoje, Igreja Luterana, em Juiz de Fora, teve origem na imigrao germnica que ocorreu na cidade durante o ano de 1858. Um percentual significativo dos imigrantes vindos para Juiz de Fora, professava o credo Luterano, cerca de 45,36 % contra 54,64% catlicos, trazendo para a provncia de Minas Gerais um problema que at ento era desconhecido: o religioso. [7] Esses primeiros protestantes tiveram os seus direitos restringidos dentre eles a ausncia da legitimao dos casamentos e ausncia da regulamentao de herana. Este problema foi estendido para as sepulturas. Apesar de terem conseguido autorizao de D. Pedro II para construrem em 1885 uma Casa de Orao, ainda no tinham como enterrarem os seus mortos. O vigrio geral da cidade no permitia que protestantes enterrassem seus mortos no cemitrio catlico. Devido intolerncia do religioso muitos evanglicos foram sepultados revelia na cidade at conseguirem um local apropriado no ano de 1886 para os seus sepultamentos. [8] Os alemes quando chegaram ao Brasil, encontraram um Estado Monrquico e puderam observar a passagem da Monarquia para a Republica em 1889.


J no sculo XX com a morte do presidente alemo Hindenburg em 1932, Hitler assumiu o ttulo de Fhrer (guia), acumulando as funes de chanceler e presidente, e assim anunciou a fundao do III Reich alemo (III Imprio Alemo). Com a ascenso de Hitler ao poder a Alemanha desencadeia uma seqncia de agresses e anexaes polticas para a expanso de seu territrio. O mundo dividido em dois Blocos: o dos Aliados e o do Eixo. [9]


Enquanto a conjuntura mundial caminhava para uma iminente guerra, no Brasil Getulio Vargas se articula de maneira que passa a controlar as foras polticas divergentes em seu governo. So elas: as classes mdias, os setores agro-exportadores e os bancrios.O governo de Getulio interessado na centralizao do poder criou diversos mecanismos de controle, exemplo, instituies como DASP [10] e o DIP [11] , dentre outros que atuaram de forma a promover maior interveno do Estado em polticas nacionalizadoras. [12] Vargas acentuou o controle do Estado sobre a vida social e econmica da populao brasileira. Deu incio ao projeto do culto a sua prpria imagem, atravs do DIP, e lanou um projeto de militarizao do cidado brasileiro. [13] As tendncias pr-germnicas do governo favoreceram o aparecimento de vrios segmentos favorveis ao nazismo, pois at meados de 1938, a Alemanha era vista pelo governo de Vargas, como um modelo de modernidade. A conjuntura brasileira dos anos 30 favoreceu a proliferao da ideologia nazista em nossa sociedade. As simpatias brasileiras pelo regime alemo eram o de exaltao a tudo que fosse identificado como ariano. [14] A presena nazista foi menos folclrica e de uma importncia poltica notvel segundo Ana Maria Dietrich. Em sua tese de doutorado pela USP, Dietrich defende a idia da tropicalizao do nazismo, pois segundo a autora, a tropicalizao ocorreu de acordo com as nuances que a realidade brasileira imps ao nazismo. [15] O governo brasileiro em 1937 no estava rigorosamente a par da existncia e atuao do Partido Nazista no Brasil e, se sabia, fazia vista grossa, sem fazer controle para assuntos a esse respeito devido s afinidades com o governo alemo. Essa neutralidade foi mantida e mesmo durante o conflito mundial o Brasil tinha uma srie de acordos comercias com a Alemanha. [16] O partido nazista brasileiro funcionou segundo Dietrich [17] por dez anos no pas, atuando em 17 estados brasileiros, com 2.900 integrantes, sendo um contingente, segundo a autora, s superado pelo partido nazista na Alemanha. Dos oitenta e trs pases que tiveram uma filial da NSDAP - Partido Nacional Socialista Alemo dos Trabalhadores [18] , o Brasil ocupa o primeiro lugar saindo na frente da ustria. Em Juiz de Fora o Partido Nazista funcionou na antiga cervejaria Americana, tendo como lderes Hermann Zahan, Herman Luipold e Viktor Schwaner.


A partir de 1938 temos uma virada no discurso de Vargas, que se torna altamente nacionalista, de valorizao da cultura brasileira. Seu projeto poltico centrava-se em buscar uma identidade nacional, de valorizao da cultura indgena e da natureza o que era antes considerado como modelo (os alemes) tornou-se um perigo para a identidade brasileira. Portanto dentro do projeto ideolgico de nacionalizao do Brasil (1938/1942) almejado por Vargas, o alemo passa a ser tido como um perigo ideolgico, e divulgador do iderio nazista. Enfim um perigo tnico. A partir da mudana panormica do governo, o imigrante se torna um entrave para a consolidao da cultura brasileira, sendo este identificado como elemento que no queria abrasileirar-se. A comunidade alem no Brasil no s insistia em preservar seus hbitos e costumes tradicionais, como tambm mantinham organizaes polticas cuja ideologia seguia as orientaes diretas do governo alemo. [19] No havia no projeto nacionalista do Estado Novo espao para a incluso e aceitao de convivncia com fortes e estruturados grupos culturais estrangeiros nas regies de colonizao. Assim temos uma busca para abrasileirar os ncleos de estrangeiros considerados como cernes resistentes, como o dos alemes. Este grupo despertou a maior ateno e a maior preocupao nas autoridades governamentais, pois era reconhecido como o ncleo estrangeiro mais obstrudo em torno de sua prpria cultura, de sua prpria lngua e de sua prpria nacionalidade. Eram os alemes acusados sistematicamente de impedir o processo de nacionalizao pela insistncia com que mantinham suas prprias caractersticas. O perigo alemo, consiste em acreditar que os pases do continente sul-americano seriam anexados ao Reich alemo, atravs da invaso do exrcito, em caso de vitria alem na guerra. Temos ento uma idia de invaso alem pelas colnias. As portas de entrada para a invaso seriam as colnias de origem germnica. [20]


Quando o Brasil forado a declarar guerra contra os pases do Eixo (Alemanha, Itlia e Japo) devido a um afundamento de navios brasileiros por supostos ataques alemes em 1942, as situaes dos imigrantes ficaram tensas. As mobilizaes populares brasileiras criaram um clima hostil com os estrangeiros do Eixo e com seus descendentes. [21] E na cidade de Juiz de Fora tambm aconteceram manifestaes. Diversas ruas tiveram seus nomes trocados, clubes fechados e prises efetuadas. A Igreja Evanglica Alem teve de alterar o nome para Igreja Evanglica de Confisso Luterana. Seu pastor Viktor Schwaner foi preso e identificado como propagador do iderio nazista. [22]


Seguindo esse raciocnio acima analisado, passemos agora a estudar o pastor alemo Viktor Schwaner e sua esposa Annelise. Ambos chegaram cidade de Juiz de Fora no ano de 1932 e permaneceram at o ano de 1943, quando a partir de ento, foram para Belo Horizonte. Viktor filho de Matilde e Ricardo Schwaner, de nacionalidade alem, nascido em Kunzendorf, em 21 de janeiro de 1906. Veio para o Brasil em 1929 para a cidade de Blumenau at ser transferido para Juiz de Fora em 1932. O pastor e sua famlia passaram a residir em Juiz de Fora na Rua General Gomes Carneiro, bairro Fbrica, nmero 66, para exercer seu pastorado na Comunidade Evanglica Alem. [23] O objetivo do pastorado de Schwaner era o de reunir os germnicos dispersos, trabalhando no incentivo de juntar todas as pessoas pertencentes comunidade tuta. Para reunir novamente os alemes da colnia D. Pedro II que estavam dispersos, ele constri em 1935 uma igreja, para que os colonos no fossem mais para a igreja catlica da colnia. [24] Schwaner provavelmente foi criado dentro do contexto nacionalista alemo. A Alemanha torna-se Estado no ano de 1870, atravs da figura de Bismarck, poca na qual podemos verificar todo o inflamar em favor do patriotismo. Sentindo todo o crepitar desse fator histrico, podemos supor em qual contexto Schwaner tenha sido educado. Schwaner nasce em 1906, apenas 36 anos, aps a consolidao do Estado alemo, de luta pela unidade germnica. Provavelmente a infncia e a sua adolescncia foram marcadas pelo crescente nacionalismo alemo. No ano de 1914, ano de incio da I Guerra Mundial, Viktor tinha oito anos de idade. Podemos deduzir que ele passou por todo o processo de nacionalismo e unidade alem, que criou no povo alemo hbitos nacionais profundamente enraizados de obedincia e disciplina. [25] Esses fatores que marcaram a infncia de Schwaner e no devem ser desconsiderados.


Foi no ano de 1942, aps vrios movimentos governamentais contra os alemes que o colono Alfredo Mlher [26] , em 23 de julho faz perante a delegacia de polcia a denncia de acusao contra o pastor alemo. Declarando perante os policiais que seu filho Paulo Edmundo Mlher, embarcou para a Alemanha pedido do governo alemo, que aceitou a indicao feita por Schwaner sobre Paulo em abril do ano de 1937 para trabalhar na Frente de Trabalho Alem. [27] Declarou o acusador, que seu filho Paulo participava da escola e da juventude alem [28] dirigida pelo prprio pastor. Apesar do prazo j ter se expirado na Alemanha, Edmundo at o presente momento ainda no havia voltado, e ele deveria ter voltado no ano de 1939. Alfredo relata que desde o ms de setembro no recebe noticias de seu filho. As noticias que ele recebia de Paulo era atravs de cartas, e essas cartas foram por ns analisadas e elas apresentam, em princpio, uma profunda admirao de Paulo pela Alemanha na pessoa de Hitler e at mesmo certa comparao de Hitler com Getlio. A Alemanha era invencvel para Paulo. Nas ltimas cartas o desejo de retorno ao Brasil pode ser notado. Sua saudade da ptria visvel quando ele expressa: Viva a ptria amada Brasil!.


Em seu testemunho de acusao Alfredo denuncia a existncia do grupo partidrio em favor do nazismo. Aps a denncia de Alfredo, foi que a polcia passou a suspeitar do referido pastor. Sendo assim, foi aberto um inqurito policial contra o pastor. A partir desse inqurito o pastor foi acusado de fazer propaganda em favor do Partido Nacional Socialista Alemo em 12-02-1942 ao entregar panfletos nas ruas de Juiz de Fora para vrias pessoas. A partir desse inqurito temos relatos histricos de que em Juiz de Fora funcionou o que podemos chamar de reunies de cunho nazista, nas quais o pastor estava inserido ora como ouvinte, ora como lder. Segundo as testemunhas de defesa estudadas, o partido funcionou em juiz de Fora at o ano de 1937.


A identificao do suspeito aps a denncia feita contra ele por Alfredo, passou de mera lgica da desconfiana, para a certeza de um nazista em potencial.Dado o momento histrico no qual estava inserido, Schwaner seria a personificao do nazismo na cidade de Juiz de Fora. Consequentemente a igreja Alem, a qual ele era o lder, passou a ser constantemente vigiada pela polcia. A Igreja Evanglica Alem, a qual ele era pastor, fechou suas portas por decreto judicial. A igreja foi considerada pela polcia, como um meio de propagao de idias nazistas atravs de seu lder religioso. As aes policiais aumentaram frente invaso da casa pastoral. Invadida a casa de Viktor Schwaner, foram encontrados vrios materiais que serviam de propaganda, tais como, panfletos, artigos, jornais, assim como fotos de Hitler pelas paredes, e a Sustica. Em funo da priso do pastor, a Igreja ficou fechada por algum tempo j que a sustica fora encontrada como bandeira dentro da igreja. A justificativa de a sustica ter sido encontrada na igreja partiu do testemunho de Schwaner que afirmou que em Juiz de Fora se realizava cultos referentes a acontecimentos na Alemanha. Na ocasio em que as fotos da igreja com a sustica e a guia nazista foram tiradas, relatou o pastor que foi um culto solene em memria da morte do presidente alemo Hildenburg em 1932. Aps a reabertura da Igreja Alem, esta no ficou livre da desconfiana sendo designados dois oficiais militares, para permanecerem em p nas laterais da igreja. Os imigrantes alemes tiveram seus bens cadastrados e seus nomes relacionados em uma lista feita a mando da polcia poltica. [29] Acusado Viktor Schwaner de propagador nazista, foi julgado pelo Tribunal de Segurana Nacional em 23 de julho de 1942 e seu companheiro de partido Hermann Zahan tambm passou por acareao policial.


Tanto Viktor e sua esposa Annelise Schwaner, ambos de nacionalidade alem, foram indiciados no disposto artigo 2 ns. 2 e 5 (infine) do decreto lei nmero 383 [30] , de 18 de abril de 1938, combinando com o artigo 10 em que foram classificados, segundo o procurador do Tribunal de Segurana Nacional, Jos Maria Mac-Dowell da Costa. Segundo o decreto-lei 383, de 1937. O decreto usado no processo de Schwaner, proibia qualquer atividade de natureza poltica dos estrangeiros no pas, ficando estabelecido que os descendentes de pases de Eixo no poderiam organizar criar ou manter sociedades ou fundaes, companhias, clubes ou qualquer estabelecimento de carter poltico, ainda que tivessem por fim exclusivo a propaganda ou a difuso entre os seus compatriotas. Tambm era proibido ostentar ou portar smbolos do Eixo, organizar desfiles, passeatas, comcios ou reunies de natureza poltica. Mesmo com essas proibies, muitas instituies beneficentes foram organizadas e serviram de fachada com a inteno de driblar a represso policial. [31] Esse decreto se enquadra perfeitamente na acusao contra Schwaner. As acusaes contra o referido pastor so: o de fazer propaganda ideolgica nazista, distribuindo panfletos e livros de cunho nazista. As provas que agravaram o seu inqurito foram: a sua participao no envio de um jovem para a Alemanha, alm de ter sido membro e lder do partido nazista em JF, ter dado a um grupo extenso de pessoas, material de propaganda poltica favorvel ao nazismo, e ter sido encontrado em sua casa matrias referentes Alemanha e ao prprio Hitler. No obstante, seu processo foi agravado devido ter sido encontrado em sua casa, vrios quadros de referncia nazista pregados nas paredes, e a sustica.


Schwaner foi condenado por imiscuir-se direta ou indiretamente nos negcios pblicos do pas e exercer qualquer atividade de natureza poltica. Foi considerado que Schwaner no s se intrometeu nos negcios pblicos do pas como exerceu atividade de natureza poltica pretendendo assim influenciar o seu meio por comparao impertinente, de tendencioso incitam. O pastor Viktor Schwaner foi condenado a trs meses de priso em Neves e h uma multa de: 7:500$000 (sete quantos e quinhentos mil ris), grau mdio estabelecido no artigo 10 do citado decreto-lei 383, pelo processo de nmero 2202. O ru recorreu ao Tribunal Superior de Segurana Nacional. Porm seu recurso foi negado, havendo a confirmao da sentena apelada.


O caminho do historiador reconstituir a Histria a partir dos dados e das fontes disponveis. Construir a Histria no priorizando um grupo, mas sim de acordo com as evidncias documentais. O perigo imposto pela disseminao da propaganda nazista e pela atuao, cada vez mais organizada, do Partido Nazista no Brasil passou a ser preocupao do governo brasileiro. A represso aos alemes tinha justificativa diante da posio poltica internacional e da diplomacia do contexto de guerra, naquele momento.


A imagem que ficou na comunidade Luterana de Juiz de Fora, sobre a pessoa de Schwaner, foi sua dedicao ao trabalho. lembrado por muitos como uma pessoa autoritria, mas no devemos tomar isso como imagem negativa de sua pessoa, pois entendemos que o ser influenciado pelo momento histrico. Na dcada de 30/40 a imagem de um lder religioso era a de um homem ntegro, rgido, autoritrio, senhor dos saberes da vida. Sobre a priso de Schwaner, a Igreja Luterana ainda sente muito constrangimento em falar a esse respeito. E na poca faltou apoio ao pastor devido ao fato de ser uma situao melindrosa na qual o pas se encontrava. Muitos na comunidade Luterana, contudo, depois de anos terem se passado, ainda acreditam na inocncia do acusado. o fazia parte do grupo dele, sendo os mais velhos os que teriam melhores informato de serem muito novos.


Aps trs meses, Schwaner foi solto em 24 de dezembro de 1942, indo para a comunidade de Belo Horizonte exercer o pastorado da ento extinta comunidade Evanglica Alem de Belo Horizonte. Trabalhou como professor de lnguas para os tcnicos da siderrgica alem Mannesmann. A comunidade Luterana de Juiz de Fora continuou recebendo a visita de Viktor Schwaner, mesmo aps todo o acontecido com o mesmo. Ao que tudo indica morreu em Belo Horizonte, pois no conseguimos apurar tal informao. Fao nossa, as palavras de John Lukacs, de que todo historiador trabalha necessariamente baseado em provas incompletas e ao mesmo tempo ns os historiadores temos em nossas mos um potencial ilimitado de pesquisa processual que nos auxiliam na reviso do passado, pois o saber histrico mais que exatido ou julgamento: compreenso. [32]


Ao debruarmos sobre a trajetria de um indivduo, devemos observar o contexto histrico em que o mesmo viveu. Devemos analisar que nascer estar submetido obrigao de aprender. Nascer penetrar nessa condio humana. Entrar em uma histria, a histria singular de um sujeito inscrita na histria maior da espcie humana. Entrar em um conjunto de relaes e interaes com outros homens entrar em um mundo onde ocupa um lugar (inclusive social) e onde ser necessrio exercer uma atividade. [33] Quando se estudo um indivduo em particular necessrio levar em conta seu lugar natal. preciso ter a conscincia de que a cultura vai influenciar a viso de vida de cada ser, orientando o fazer e o imaginar individual e interferindo na prpria educao da sensibilidade, ampliar ou congelar suas possibilidades. A cultura que o indivduo nasce torna-se parte de sua natureza. atravs desse meio fsico e social que o ser constri seu pensamento, transformando os processos psicolgicos elementares em processos complexos, fazendo com que a cultura torne-se parte de sua pessoa. [34]


Segundo Kant, o homem a nica criatura que precisa ser educada. Para Fichte todos os animais so acabados e prefeitos, o homem no, ele apenas esboado, indicado. Para Lucien Seve o indivduo se beneficia das relaes exteriores ele, e estas relaes que fazem o indivduo hominizar-se atravs de seu processo de vida real no mago das relaes sociais, ou seja, os homens se influenciam mutuamente, e cada ser influenciado pelo meio em que nasce. [35]


Nos captulos I e II de nosso trabalho mostramos o forte apelo que o Nazismo fez aos germnicos e simpatizantes. Fazendo uma busca da ao poltica do Pastor Viktor Schwaner em Juiz de Fora (1935-1942) encontramos indcios de simpatias e apoio aos nazistas. Nada de se estranhar, levando-se em conta o contexto histrico em que viveu.


O reconhecimento de pessoas na participao ou de simpatia ao Nazismo , ainda, vista com temor por diversos grupos sociais. Contra as situaes de levar em conta somente a histria dos vencedores, dos heris, cabem a ns, historiadores, rompermos com posturas maniquestas e privilegiadoras. Em nossa pesquisa buscamos conhecer o Pastor Viktor Schwaner como ser humano histrico, um ser em toda a sua singularidade, um exemplar nico portador e influenciador, sobretudo da histria da cidade de Juiz de Fora.


REFERNCIAS




Arquivo Histrico da Cidade de Juiz de Fora:




Crimes contra a segurana nacional, 12-02-1942. Processo Crime contra VIKTOR SCHWANER. Processo crime da Repblica, Documentos relativos II Guerra Mundial- Caixa 01. PJF/AH-1940/1942.




Crimes contra a segurana nacional, 12-02-1942. Fundo da Repblica Nova 1930/1945- Documentos relativos II Guerra Mundial- Caixa 02- PJF/AH-1940/1942.




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www.revistapesquisa.fapesp.br. Capturado em 20/01/2008.




[1] Professora da rede municipal formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora no Instituto de Cincias Humanas - ICH, bacharelada e licenciada pelo Departamento de Histria da Universidade Federal de Juiz de Fora e ps-graduada pela mesma instituio. Professora da UAB e da rede municipal de Juiz de Fora.


[2] LE GOFF, Jacques. Reflexes sobre a Histria.Lisboa. Edies 70.1982. p.3. Aphud. SILVA, Francisco de Assis. Sculo XX:A Caminho do Terceiro Milnio. Manual do Professor.ed. Moderna.Impresso Revista. So Paulo.2001.p.261.


[3] MILANS,Pablo, verso de Chico Buarque (1978). Cnacin por La Unidade Latinoamericana. Aphud SILVA, Francisco de Assis. Sculo XX:A Caminho do Terceiro Milnio. Manual do Professor.ed. Moderna.Impresso Revista. So Paulo.2001.p.261.


[4] Este trabalho na ntegra pode ser consultado no Departamento de Histria e no Arquivo Histrico da UFJF. O processo em que trabalhamos pode ser encontrado no Arquivo Histrico da Prefeitura de Juiz de Fora.


[5] BASTOS Wilson de Lima. Mariano Procpio Ferreira Lage sua vida, sua obra, sua descendncia. Juiz de Fora: Caminho Novo, 1961. p. 69-70.


[6] STEHLING, Jos Luiz. Juiz de Fora e a Companhia Unio Indstria e os alemes. Juiz de Fora: Prefeitura de Juiz de Fora, 1997. p.330 a 336.


[7] Dados percentuais de: CARNEIRO, Deivy Ferreira.Conflitos, crimes e resistncia: uma anlise dos alemes e teuto-descendentes atravs de processos criminais (Juiz de Fora-1858/1921). Rio de Janeiro:UFRJ,PPGHIS, 2004.Tese de mestrado.p.23.


[8] STEHLING, Jos Luiz. Juiz de Fora e a Companhia Unio Indstria e os alemes...op.cit. p. 243.


[9] Eixo- Alemanha, Itlia e Japo, e Aliadados- Inglaterra, Frana , Portugal, Espanha... MELLO, Leonel Itaussu A. in COSTA, Lus Csar Amad. Histria Moderna e Contempornea. Ed.Scipione.1995. 5a. ed. Reedio revista e atualizada.


[10] Departamento de Administrao e Servio Pblico setor responsvel por fiscalizar as administraes estaduais.


[11] Departamento de Imprensa e Propaganda, seu objetivo era o de controlar as informaes passadas as camadas sociais e ao ministrio do trabalho.


[12] ALENCAR, Francisco. Histria da sociedade brasileira. Francisco Alencar, Lcia Capri Ramalho, Marcus Vencio Toledo Ribeiro. Rio de Janeiro. Ed:Afiliada.1996. p.321.


[13] LENHARO, Acir. A Sacralizao da poltica. 2 ed.S.P. Papirus 1986. p. 86.


[14] PERAZZO, Priscila Ferreira. O perigo alemo e a represso policial no Estado Novo. Coleo Teses e Monografias, v.1. So Paulo: Arquivo do Estado, 1999. p. 36.


[15] DIETRICH, Ana Maria. O partido nazista no Brasil. Tese de doutorado.USP. 2006. www.revistapesquisa.fapesp.br. Capturado em 20/01/2008.


[16] PERAZZO, Priscila Ferreira. O perigo alemo e a represso policial no Estado Novo.op.cit.p.73.


[17] DIETRICH, Ana Maria. O partido nazista no Brasil. Op.cit. www.revistapesquisa.fapesp.br. Capturado em 20/01/2008.


[18] Nationalsozialistische Deutsch Arbeiterpartei- mais conhecido como Partido Nazista, ou Partido Nazi, foi um partido poltico levado ao poder na Alemanha por Adolf Hitler em 1933. O partido estabeleceu o Terceiro Reich aps ter sido democraticamente eleito para liderar o governo alemo em 1933. Wilkipdia. Capturado: 20/01/2008. A NSDAP tambm introduziu o movimento nacional-socialista na Amrica Latina, veiculando material de propaganda. PERAZZO, Priscila.op.cit.p.58.


[19] PERAZZO, Priscila Ferreira. O perigo alemo e a represso policial no Estado Novo.op.cit. p. 43 e 44.


[20] PERAZZO, Priscila Ferreira. O perigo alemo e a represso policial no Estado Novo.op.cit. .p.49.


[21] TRIBUNA DE MINAS. Juiz de Fora. Imigrantes. 150 Anos de Juiz de Fora. 31 de maio de 2000. Edio comemorativa de 150 anos de Juiz de Fora. Juiz de Fora. p.14.


[22] KAPPEL, Oscar. Comunidade evanglica de Confisso Luterana em Juiz de Fora: 140 anos de histria. Juiz de Fora: Editar Editora Associada, 2002. p.41.


[23] www.luteranos.com.br. Consultado:20/01/2008.


[24] KAPPEL, Oscar.op.cit. p. 48.


[25] MELLO, Leonel Itaussu A. in COSTA, Lus Csar Amad. Histria Moderna e Contempornea. op.cit.p. 189 222.


[26] Alfredo aparece como um dos alemes registrados pela delegacia especializada, O texto na ntegra se encontra em nosso trabalho.


[27] Identificada hoje como uma clula nazista.


[28] A Juventude Alem era uma organizao de jovens que participavam de competies esportistas e tinham em seus uniformes o smbolo nazista,o uniforme da Hitler Jungend era de cor marrom, e a cor do uniforme da Jungschar juizforana era de cor cqui (um marrom mais claro), com um talabarte atravessado com a Hakenkreuz, ou seja, com a sustica. A Hakenkreuz, o nome em alemo que significa cruz de gancho. Em diversos momentos Hitler reconheceu que o futuro estava nas mos de jovens e de crianas, e que se eles fossem bem educados seria o futuro da raa ariana. a juventude juizforana a Jungschar, que significa bando de jovens, tinha ensino e prtica esportiva de saltos a distancia, de saltos de altura, de canoagem e natao no rio Paraibuna.




[29] Para maiores detalhes consultar nosso trabalho na ntegra.


[30] Estrangeiro que distribui folhetos de propaganda de adeso poltica externa dos chamados pases do Eixo e icintamento a assimilao do regime vigente a ideologia totalitrias no que toca a poltica interna, cometo o crime do art..1 do decreto lei 383, de 1937.


[31] PERAZZO Op.Cit.Pg.45.


[32] LUKACS,John. O Hitler da Histria.op cit.p.15 19.


[33] CHARLOT, Bernard. Da relao com o saber, elementos para uma teoria.trad Bruno Magne-Porto Alegre:Artmed,2000. p.53.


[34] Para compreender mais sobre a formao do homem junto a cultura consultar: VYGOTSKY,L.S. A formao social da mente. So Paulo, Martins Fontes,1984.


[35] Aphud CHARLOT, Bernard. Da relao com o saber, elementos para uma teoria.trad Bruno Magne-Porto Alegre:Artmed,2000. p.52.



Por Sabrina Munck do Nascimento

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