O Agente de Emigrao Joseph Mormeyer

Nilo Franck

Geral

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O AGENTE DE EMIGRAÇÃO JOSEPH HORMEYER




 Moacyr Flores


Desde os tempos da pré-história, o ser humano desloca-se constantemente de uma

região para outra, em busca de melhores condições de vida. A industrialização na Europa, em diferentes épocas, trouxe a miséria e a fome, principalmente para os artesãos que perderam seu mercado de trabalho por causa das máquinas que aumentaram a produção, deram qualidade e baratearam o produto. De um lado havia a pressão social que empurrava as famílias pobres para a emigração, do outro lado o Novo Mundo era visto como uma Canaã, onde corria leite e mel, verdadeiro país da Cocunha medieval. Os agentes de emigração aproveitaram-se desse imaginário para atrair as famUias para o Novo Mundo.


Entre eles Joseph Hormeyer, que nasceu em Sant Polten, Austria, em 28.2.1824 e faleceu em Viena em 1873. Contratado pelo Império do Brasil, em 1851 como capitão de infantaria do exército de mercenários que deveria lutar contra o ditador Rosas, permaneceu com o 15" Batalhão de Infantaria em Rio Grande, onde vários mercenários desertaram. Hormeyer desligou-se do exército imperial em 1854, antes de terminar seu contrato. Migrou para Santa Catarina e logo em seguida viajou para a Alemanha, onde escreveu livros e artigos de propaganda sobre a emigração para o Brasil, especialmente para o Rio Grande do Sul. Em 18ó3 publicou o livro O que Jorge conta sobre o Brasil, de leitura agradável, dividido em 14 noites ou capítulos, onde narra as providências que a família alemã deveria tornar para emigrar, traça um painel dos costumes brasileiros e as modificações que estavam oconendo nas colônias de S. Leopoldo e de Santa Cruz.

Hormeyer cria o personagem Jorge, que depois de dez anos de serviço militar na Europa, deu baixa e foi trabalhar num moinho. Conheceu a jovem Elisa e pretendeu com ela casar, mas não possuía 1ÓO florins, para provar ao pastor que podiam ter uma vida em comum. Sem dinheiro, foi morar na casa de Elisa sem o ritual do casamento, escandalizando as pessoas piedosas, que deixaram de comprar os produtos cultivados pelo casal. A própria sogra deu a idéia para o casal emigrar. Jorge queria ir para a América do Norte, mas precisava de 104 florins para as passagens. O agente informou que estava preparando um grupo de 50 famílias para o BrasiL A passagem seria paga por um cafeicultor e Jorge ainda poderia casar com Elisa no porto de Hamburgo, antes de zarpar. O personagem tece louvores ao sistema de parceria na lavoura de café, onde foram bem tratados e ajudados pelo fazendeiro. Depois de cumprir seu contrato, Jorge viaja até Santos e depois para o Rio Grande do Sul, onde teria adquirido um lote na linha Dona Josefa. Cuidou do lote, depois vendeu e foi morar na Linha Feliz, retomando à sua aldeia natal para buscar a sogra e cunhadas.

Com este enredo verossímil, o livro informa que no Brasil não se calçavam as ruas com diamante ou ouro, nem se atrelavam imigrantes alemães em arado e só os negros eram vendidos como escravos. Informa que a terra é fértil e produz mais batata em dois meses que na mesma área da Alemanha. Em sua explanação racista informa que o colono não precisa temer os selvagens, basta uma espingarda de dois canos e alguns cães. Considera o brasileiro como uma raça peculiar, formada de diferentes cores, mas a cor branca é considerada como sendo foro de nobreza. Informa que os negros são estúpidos, preguiçosos e maus, enquanto que os mulatos claros são homens talentosos e hábeis.

No segundo capítulo, faz propaganda da casa de Robert Slomann, em Hamburgo, que promove embarques de colonos para Blumenau e Dona Francisca e envia navio para o Rio Grande do O governo brasileiro subsidiava a passagem desses emigrantes. Os navios do armador Slomann partiam do porto com provisões para 13 semanas, calculando para cada pessoa 32 libras de carne de vaca salgada ou 24 libras de carne de porco salgada; 13 libras de toucÍnho salgado; 65 libras de bolacha; 10 libras de pão preto; 41h libras de manteiga; 451h libras de farinha de trigo, cevadinha, ervilhas, feijão, arroz, ameixas e chucrute; 6Y2 medidas de batata ou 61h libras de legumes secos; llh libra de xarope; 1 % libras de café; 1;4 de libra de chá; 2 quartilhos de vinagre; 300 litros de água. Para os doentes e crianças, mais uma porção de vinho, açúcar, sagu, aveia e medicamentos. O manual recomendava quatro hospedaria em Hamburgo para os emigrantes. Em sua bagagem, o emigrante deveria levar 1 caneca, 1 garrafa para água, manteigueira, bandeja para comida, bacia, colher, tudo de lata, e mais colchão, travesseiro, colchas e cobertas de lã. A seguir o manual dá os preços do transporte das pessoas e bagagens de trem, de barco fluvial de diÍerentes lugares da Alemanha até o porto. Para emigrar bastava um atestado de boa conduta fornecido pelo burgomestre ou pelo pastor.

No terceiro capítulo descreve o embarque. Os emigrantes viajavam na entreponte, isto é, no convés inferior, onde as camas eram armadas em duas séries, urna sobre a outra, cabendo duas pessoas em cada beliche. A bagagem miúda era colocada em baixo das camas, a mais pesada viajava no porão. Recomenda aos que se destinam ao Rio Grande do Sul e Santa Catarina, que levassem um pequeno fogão de ferro, relógio de parede, espingarda de dois canos, munição, machados, cunhas, eixos de ferro, roupas, sapatos e chapéu de abas largas. A pequena farmácia deveria estar provida com flores de sabugueiro e macela em latas de folhas de Flandres; tintura de amica, álcool para diluição, pílulas laxativas, pós-vennifugos, emplastro inglês, garrafinhas com antídoto contra veneno de cobra. Recomenda que não se esqueçessem de levar para as crianças os livros didáticos e o que tem algum oficio, suas ferramentas.


Entre os companheiros de viagem de Jorge havia muita gente má e desregrada, que estabeleceu uma atmosfera imoral e escandalosa. Os chefes de famílias se reuniram e escolheram três entre eles, para imporem a ordem e a moralidade. Durante a viagem as mulheres lavavam roupas e costuravam, os homens descascavam batata, faziam exercícios e jogavam cartas. À noite cantavam ou faziam jogos de prendas, sem se descuidarem das moças e rapazes. Jorge conta que viu desembarcarem no Brasil grupos de imigrantes degradados pela imoralidade durante a viagem, praticando todos os atos de libertinagem, entre os quais mulher alguma ficou fiel ao marido e moça alguma ficou inocente. Para evitar a imoralidade, recomenda que alguém faça orações diariamente.

Madame Langendonck confirma que a Alemanha enviou ladrões, incendiários e assassinos, gente que passou até doze anos na prisão, para a colônia de Montravel. Considerava os belgas e holandeses como gente deplorável, que vinha em busca de ouro e diamante e não queriam trabalhar (Langendonck, p. 26-28).


Descreve a belíssima baía da Guanabara e os primeiros negros que viu. As autoridades aduaneiras subiram a bordo para verificarem se não contrabando, queixas contm o comandante ou doentes a bordo. Depois eram hospedados na ilha de Bom Jesus, à espera de transporte para o porto de Santos e de lá, para as fazendas de café, ou então para o F.io Grande do Sul e Santa Catarina.

Na quinta noite considera que os contratos nos cafezais são favoráveis porque na Alemanha, Portugal e Suíça, há muitas vitimas das classes mais baixas da população morrendo de fome e frio. Descreve o sistema de parceria nas grandes fazendas de café, que por culpa de colonos desonestos, fez com que este sistema desaparecesse, pois "a maioria são gente arrebanhada nas cidades e fábricas, prostitutas, atores, barbeiros, mestres-escolas e tecelões, mas nenhum agricultor. Os fazendeiros receberam também velhos, aleijados e desequilibrados em vez de trabalhadores capazes".


No sexto capítulo, fala sobre a adaptação do colono à alimentação brasileira e ao clima. Recomenda que imitem os brasileiros, usem calçados e, à noite, lavem os pés. Muitas vezes os colonos contraíam doenças no navio, pela falta de higiene. Considera a praga dos insetos mais perigosa que a onça ou a cobra. O pior é o mosquito, que dura o ano inteiro. A segunda praga é a de bicho-de-pé, que ataca os colonos por serem porcalhões e não lav(lJem os pés. Há as formigas saúvas, que tudo comem e as formigas domésticas que invadem os alimentos. Afirma que em dez anos que viveu no Brasil nunca viu ninguém picado por cobra ou mordido por jacaré, do qual se contam histórias terríveis.

Inicia o sétimo capítulo afirmando que a maior bênção de um colono em terra estrangeira é uma mulher honesta, sadia e laboriosa, corno sua maior desgraça é uma mulher rixenta, falsa, infiel e preguiçosa. Aconselha ao emigrantes para casarem na Alemanha, pois vêm para o Brasil mais homens solteiros do que mulheres. Como no início dos trabalhos na terra a mulher faz mais falta, para ajudar na lavoura e para preparar alimentos, o colono terminava se unindo com qualquer mulher, mesmo a de má fama. Tal era a situação que não ficava mulher feia ou velha sem encontrar um homem. Depois descreve os instrumentos agrícolas e as técnicas de cortar o mato e preparar a terra. Narra seu trabalho durante cinco anos na fazenda de café, em S. Jerônimoo S. Paulo e sua mudança para Santa Cruz, no Rio Grande do Sul, com a bolsa recheada de dinheiro.


Outro fator pouco estudado é o grande número de solteiros que tinham dificuldades para conseguir mulher vigorosa que reunisse numa só pessoa a criada, a senhora, a mãe e a ama. Avé Lallemant informa que S. Leopoldo exportava este "artigo" para Santa Cruz. (Avé Lallemente, p. 169).

Na oitava noite explica as diferentes maneiras de um imigrante trabalhar: o sistema de meação, ideal para os imigrantes pobres que não podem pagar a passagem e as despesas de instalação; a segunda, é de comprar a terra a dinheiro ou em prestações; a terceira maneira era de se estabelecer em colônia do Estado, tendo a passagem paga, alojamento, transporte, sementes, ferramentas e ainda recebia a terra demarcada com uma pequena casa, podendo trabalhar nos primeiros seis meses na abertura da picada.


Nas chamadas colônias provinciais, os imigrantes recebiam transporte de Rio Grande a Porto Alegre, alojamento nas duas cidades e transporte para a colônia, que deveria ser reembolsado depois de cinco anos. Nas colônias provinciais de Santa Cruz, Santo Angelo e Petrópolis, os colonos compravam um lote de 100.000 braças quadradas.

Jorge narra no nono capítulo sua visita às colônias de Dona Francisca, Joinville e Anaburgo, afirmando que os colonos descontentes eram artífices em número execessivo na colônia. Blumenau era uma colônia rica porque havia menos artífices e todos trabalhavam rijamente no campo. Descreve a maneira de plantar cana de açúcar, colher, moer e fazer açúcar e cachaça.

colônia. Blumenau era uma colônia rica porque havia menos artífices e todos trabalhavam rijamente no campo. Descreve a maneira de plantar cana-de-açúcar, colher, moer e fazer açúcar e cachaça.

Em seu décimo capítulo fica impressionado com a quantidade de comerciantes alemães em Porto Alegre, sendo que mais de % procediam da colônia de S. Leopoldo. Jorge visita S. Leopoldo, uma cidade alemã, embora construída à maneira brasileira. Havia mais ou menos 200 casas, em cada casa uma oficina. Era também uma importante praça de comércio, que recebia os produtos coloniais. Os colonos deviam sua riqueza ao milho, ao feijão, à mandioca e à criação de porco e de gado.

viajou com a família de vapor até Rio Pardo, de onde seguiu de carreta para a picada de Dona Josefa, hospedando-se na casa de recepção, uma simples cabana. Depois foi escolher o lote, onde ergueu uma rústica cabana de palmito, explicando e ilustrando sua construção, em diferentes etapas.

No décimo primeiro capitulo ele conta o inicio de sua vida na colônia Dona Josefa.


Enquanto ele derrubava o mato, limpava o terreno e construía a choupana, a esposa Elisa travou relações com os vizinhos e em seguida sábia onde encontrar o sapateiro, o alfaiate, onde ficava a igreja, o nome do pastor e quais os produtos que eram convenientes plantar, a época certa de plantio e os preços do produto. Jorge enumera os àiferentes tipos de árvores com suas propriedades. Depois aconselha como fazer uma derrubada, começando pelos arbustos, depois tirando os cipós. Deveriam cortar os galhos das árvores tombadas, esperando quatro a cinco semanas para tocar fogo, cuidando o lado que sopra o vento, para não incendiar a mata. Jorge explica como fazer sabão das cinzas, carvão dos galhos e madeira para a construção de nova casa. Informa que no Brasil não há guarda florestal, pode-se derrubar a mata e caçar, o que era proibido na Alemanha.

No décimo segundo capítulo fala dos principais produtos da lavoura em Santa Cruz: a mandioca, o feijão preto e o milho. Considera o milho como útil pois dá forragem verde e grãos para quaisquer animais domésticos, alimenta o homem e o colmo seco aduba o terreno. Explica a maneira de plantar, de colher e as máquinas para debulhar.


No penúltimo capítulo explica a utilidade comercial de várias plantas como a cana­de-açúcar, algodão, fi.1mo, chá, frutas corno laranjas, limões, lima, amoras, ananás banana, bem corno a criação de animais corno porcos, vacas, cavalos, patos galinhas e pombos.

No último capítulo fala das instituições do Brasil, do imperador e da família real, caracterizando o Brasil como um regime democrático. Narra que não paga imposto por sua propriedade e que não existe senhorio, como na Alemanha, para se meter em sua plantação ou expulsá-Io de sua terra. Diz que sua situaçã,o não é questão de sorte, mas de trabalho, como tantos alemães que vieram sem nada e agora vivem bem em sua propriedade, com escolas da comunidade, indo a baile. Aconselha os colonos a colocar seus fIlhos em escolas brasileiras para que aprendam muitas coisas que lhes serão necessárias à sua qualidade de teuto-brasileiros. Ensina a ser cortês com os brasileiros, a bater palmas antes de entrar numa propriedade e a pedir licença antes de apear do cavalo, se não pode acontecer de ser saudado com um tiro de espingarda. Pode-se emigrar para o Brasil sem um tostão no bolso, mas tem que ser sadio e com vontade de trabalhar, mesmo um tecelão, como os da Silésia que imigraram para Santa Cruz, podem se tornar excelentes agricultores, Aconselha que os pintores, decoradores, caiadores, padeiros, barbeiros e açougueiros fIquem nas cidades onde poderão exercer seus ofícios,



O livro O que Jorge conta sobre o Brasil é, ao mesmo tempo, um livro de elogios e louvores à terra brasileira e um manual prático para quem quer emigrar para o Brasil.

A obra também é um documento sobre a situação de miséria em que vivia o camponês e o artesão na Alemanha, no período de industrialização, sem esperança de melhorar de vida, sendo explorado pelo governo, pelo senhor da terra e pelos sacerdotes. A emigração foi uma válvula de escape para a pressão social na Alemanha, ao mesmo tempo, a imigração foi benéfica para o Brasil porque trouxe o povoamento e mão-de-obra especializada,


 



Bibliografia




AVE LALLEMENT Viagem pelo sul do Brasil. Rio de Janeiro: INL, 1953.

BARRETO, Abeillard. Bibliografia sul-rio-grandense. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1975.

FLORES, Moacyr. História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Nova Dimensão, 1996. HORMEYER, Joseph. O que Jorge conta do Brasil. Rio de Janeiro: Presença, 1966.

LANGENDONCK, Madanle van. Uma colônia no Brasil. Notícias Bibliográficas e Histórica, ano 22, n. 13 7 jall/mar. 1990.



Por Moacyr Flores

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