Entre as Gentes Antropfagas

Nilo Franck

Geral

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Entre as Gentes Antropófagas


Hans Staden nasceu na cidade de Homberg, Efze, no ano 1525. Filho de um professor de escola primária, foi ensinado a ler e escrever - o que, naquela época, fazia com que pertencesse a menos de cinqüenta por cento da população. Aos 21 anos, Staden foi recrutado para a guerra de Schmalkalden, confronto entre Carlos V e os duques da Associação entre Hessen e Thuringia, os quais haviam adotado como religião o protestantismo de Lutero. A guerra findou-se em 1547 e Hans Staden não soube o que fazer de sua vida. A guerra de Schmalkalden havia terminado com a vitória do imperador Carlos V e tropas espanholas e portuguesas ocuparam por algum tempo a região de Hessen. É possível que Staden tenha ouvido destes soldados rumores sobre navios partindo para Índia e a riqueza que alguns ganharam por lá. Motivado pelos relatos que ouviu, viajou a Portugal esperançoso em encontrar um navio rumo à Índia. Infelizmente, todos os navios nessa direção já haviam partido e restou ser contratado para as próximas partidas com destino ao novo continente chamado América.


Em 1548, Staden embarcou em um navio português com rumo ao Nordeste Brasileiro. No caminho, a caravela capturou um navio espanhol, enfrentou tempestades e semanas de fome. Chegando a Pernambuco, a tripulação não encontrou tranqüilidade: a cidade de Igaraçu na vizinhança de Olinda foi atacada pelos índios caetés e teve que ser defendida. Após o cerco dos índios ter terminado, o navio continuou sua viagem para Paraíba, para ser carregado com madeira. Partindo, foram atacados novamente por uma caravela francesa - o mastro principal do navio foi danificado e morreram vários companheiros. A viagem terminou em outubro de 1549 com a chegada em Lisboa.


Contudo, Staden não deixou se intimidar pelos acontecimentos da primeira viagem. Em abril de 1550, foi contratado como fuzileiro no navio espanhol de Dom Diego de Sanabria, que partiu com destino à região do Rio da Prata. Esta viagem igualmente foi coroada com grandes dificuldades, um navio após outro naufragou e para a sorte de Staden o seu afundou perto da ilha de Santa Catarina, assim os sobreviventes puderam organizar a vida no meio da Mata Atlântica. Somente após dois anos, um outro navio que vinha do Sul levou os náufragos rumo à Europa. Essa viagem, porém, não durou muito tempo, pois na altura de São Vicente a tripulação enfrentou novamente grandes tempestades e o navio quebrou mais uma vez. Os sobreviventes encontraram na aldeia de Itanhaém portugueses que habitavam o povoado e que os ajudaram e os levaram para a vila de São Vicente.


Essa região era também controlada pelos índios da tribo dos Tupiniquins, os quais eram aliados dos portugueses. Contudo, a terra mais ao norte do litoral foi dominada pela tribo dos Tupinambás, os quais se aliaram aos franceses. O comandante de São Vicente recrutou o fuzileiro Hans Staden para assumir o Forte da Ilha de Santo Amaro, postando-o em frente à aldeia de Bertioga para controlar a entrada no canal que seguia até São Vicente. No Forte, Staden ocupou uma cabana, acompanhado de um escravo, o qual lhe servia, caçando no mato e cuidando de sua alimentação. Um dia recebeu a notícia que amigos de São Vicente iriam visitar o comandante. Para providenciar uma boa acolhida, Staden foi junto com seu escravo à caça para conseguir aves e poder preparar uma festa especial. De repente, pularam indígenas na direção dos dois e jogaram-nos ao chão, bateram-nos e acertaram com espingardas as pernas de Staden, rasgando toda a sua roupa. Staden foi levado em um pequeno barco até a aldeia dos Tupinambás e foi avisado que seria devorado.


Durante nove meses o prisioneiro viveu cativo entre os índios, sempre ameaçado de ser sacrificado. Foi obrigado a assistir várias festas, nas quais outros prisioneiros, após dias de dança e bebida, eram mortos e finalmente devorados.


Em seu livro, Staden relata que em diversas ocasiões sobreviveu somente graças a sua crença e o apoio de Deus, que lhe enviou sinais, como doenças ou tempestades, para que os índios percebessem que a morte do prisioneiro branco traria desgraça ao povo indígena.


Após estes nove meses de ameaça e insegurança, Hans Staden foi posto em liberdade, pois os franceses entregaram aos índios grande número de presentes em troca. Assim, pode regressar à Europa e relatar os acontecimentos durante o seu tempo no poder dos Tupinambás. O Prof. Dryander, decano da Faculdade de Medicina na Universidade de Marburg, uma das mais antigas na Alemanha, estimulou o jovem Staden a escrever um livro sobre a sua experiência.


O livro foi editado com o apoio do Conde Filipp de Hesse e impresso em 1557 pelo editor Kolbe na mesma cidade. O livro teve sucesso imediato e teve que ser reeditado. Em outras cidades foram produzidas cópias não autorizadas devido à falta de leis sobre direitos autorais. O que interessava as pessoas àquela época era o relato autêntico de experiências do aventureiro e os detalhes sobre o pouco desconhecido Novo Mundo.


O livro foi traduzido a vários idiomas: 1558 para o holandês e em 1592 para o latim. Hans Staden, contudo, já havia falecido em 1576, embora essa data não esteja confirmada.


Durante o século XVII, o livro continuou a despertar o interesse do público. Na época, foram editados outros livros de relatos sobre a América do Sul e o Brasil. Por exemplo, em 1567, o livro de Ulrich Schmidl que viveu quase vinte anos no Paraguai e na região do Rio da Prata. Outras edições importantes são de viajantes franceses, do franciscano André Thevet, que acompanhou a fundação de cidades na vizinhança do Rio de Janeiro pelos franceses em 1558, e de Jean de Léry que visitou na mesma época as colonos franceses e confirmou o canibalismo dos Tupinambás. O livro foi editado em 1578.


Durante o século XVIII, o livro de Staden caiu em esquecimento. Somente no ano de 1859 foi realizada uma reedição sem as famosas ilustrações do original. Em seguida, houve novas edições e versões em alemão, francês e inglês. A primeira edição em português foi publicada em 1891 pela revista Histórica e Geográfica em Rio de Janeiro e finalmente em 1900, por ocasião do quarto centenário do Brasil, saiu o relato de Staden em forma de um livro.


A grande popularidade, porém, veio mesmo com o texto de Monteiro Lobato publicado em 1926 com o título: "As Aventuras de Hans Staden" - em forma de diálogo, Dona Benta conta a seus netos a historia de Staden. Este livro foi o principal responsável para a difusão do conhecimento a gerações de brasileiros sobre Hans Staden. A partir dessa publicação, as aventuras do nosso viajante foram regularmente editadas, seja em português, alemão ou outros idiomas, como espanhol ou até em japonês. A última e mais completa edição foi apresentada em 2007 pelo Westensee Verlag, Kiel, em conjunto com o Instituto Martius-Staden.


Trata-se de uma edição com o texto original do século XVI, acompanhada de adaptação ao alemão moderno e uma tradução para o português, com todas as xilogravuras do original e uma completa bibliografia sobre todas as publicações sobre o tema durante os 450 anos desde a primeira edição. O livro pode ser adquirido no Instituto Martius-Staden pelo preço de R$ 98,00.


W olfhagen em Hessen é a cidade onde Hans Staden viveu e abriu uma oficina de produção de pólvora após seu retomo para Alemanha. A prefeitura da cidade, com o apoio de cidadãos interessados em cultura, abriu nos anos de 1950 um Museu Regional. O Museu incorporou uma coleção sobre Hans Staden no ano de 1995. Tendo por base esta contribuição, o Museu, em conjunto com o Instituto Martius-Staden, criou em 2007, por ocasião dos 450 anos da primeira publicação do livro, uma exposição itinerante. A exposição, após sua inauguração em W olfhagen em março de 2007, viajou pelo Brasil entre agosto de 2007 e maio de 2008. Foi mostrada em 10 cidades de Porto Alegre até Fortaleza e retomou para a Alemanha.


Com o apoio do Instituto Bosch, foi possível reproduzir uma cópia brasileira dessa exposição tão interessante, que com 19 painéis ilustra a trajetória de Hans Staden e de seu livro. Essa exposição os Srs. podem visitar durante os dias do encontro das comunidades alemães em Juiz de Fora. A exposição é acompanhada por um catalogo bilíngüe, o qual está à venda por R$ 30,00.


Eckhard 'E. Kupfer 29.7.2008


 


o Instituto Martius-Staden, sua história e sua importância atual


O Instituto Martius-Staden conta com uma história de 92 anos.


No ano de 1916 foi fundada uma Associação de Professores de língua alemã na então Escola Alemã de São Paulo ou, como foi chamada durante décadas, Olinda Schule, pois tinha sua sede na Rua Olinda, ao lado da Praça Roosevelt no centro da cidade. Essa Associação incumbiu-se de defender os direitos dos professores e oferecer cursos de alemão para os colegas brasileiros e cursos de português para os que chegavam da Alemanha.


No ano 1925, a Associação publicou uma matéria no jornal- Deutsche Zeitung­solicitando à comunidade alemã de São Paulo que enviassem materiais como cartas, documentos, fotos, diplomas, atas de reuniões e também material de lembranças a fim de iniciar um arquivo de memória da imigração alemã. Dessa iniciativa, surgiu o arquivo histórico do Instituto.


Em 1935, já considerando as tendências nacionalistas do Estado Novo, o então Vice-Diretor do Colégio Alemão e chefe do arquivo, Dr. Carlos Fouquet, sugeriu dar ao arquivo o nome de Hans Staden, em lembrança ao aventureiro alemão que naufragou em 1553 em Itanhaém, foi comandante do Forte de Bertioga e cativo dos índios Tupinambás por nove meses em aldeia situada em Ubatuba. Hans Staden, após regressar à terra natal, relatou sua experiência de convivência com os índios. Publicado em 1557, a obra de Staden foi o primeiro relato em forma de um livro sobre a vida dos nativos brasileiros.


O Instituto recebeu o nome então Hans-Staden-Verein. No ano de 1938, com a proibição de usar a língua alemã em aulas, a Escola transferiu sua ampla biblioteca ao Instituto que então modificou o nome para Associação Hans Staden. Com muito malabarismo e sem divulgação externa, o Instituto continuou seu trabalho durante os anos da Segunda Guerra Mundial e publicou principalmente literatura alemã em português.


A partir de 1947, o Instituto Hans Staden retomou suas atividades de coletar a história da imigração alemã e, durante os anos de 1950, ampliaram-se os cursos de língua alemã. Durante quase quatro décadas, os rendimentos da atividade letiva custearam a sobrevivência do Instituto, além de contribuições de sócios e doações de empresas.


Neste tempo, o Instituto aumentou seu espaço e instalou-se em quatro andares na Rua Sete de Abril, no centro de São Paulo. O Arquivo e a Biblioteca cresceram, houve criação de outras atividades como concertos, palestras e apresentações cinematográficas. Mesmo assim, em 1997, o Instituto teve problemas financeiros graves para sua manutenção e enviou sinais de socorro à comunidade alemã. Nessa situação, a Fundação Visconde de Porto Seguro, mantenedora do Colégio de igual nome, incorporou o Instituto Hans Staden e juntou-o à Fundação Martius, para preservar a historia da imigração e a ampla biblioteca de historia e literatura alemã. Nos anos seguintes foram encerrados os cursos de ensino alemão pelo Instituto e suas atividades


, concentraram-se em quatro campos: o Arquivo de imigração e história, a Biblioteca, Publicações e Eventos culturais como exposições, palestras e concertos.


No ano 2005, o Instituto mudou-se do centro da cidade para novas instalações dentro da Unidade III do Colégio Visconde de Porto Seguro no bairro Panamby. Com área de 600m2, oferece um arquivo informatizado com acesso via Internet, além de amplo espaço para consultas e leitores.


Como preocupamo-nos com o futuro da história de imigração, foi iniciado o Projeto sobre a História Oral, a partir de curso sob a direção de Prof. Sebe, do Depto. de Historia da USP, para que pessoas da comunidade possam relatar sua vida e as suas experiências faladas, com a posterior transcrição em documentos.


O Instituto está aberto a qualquer interessado e mantém intercâmbio com outros centros de memórias, tanto no Brasil, quanto no exterior.


Caso alguém queira saber mais sobre o Instituto e tiver a vontade de pesquisar em nosso arquivo, pode registrar-se no nosso site e terá acesso a muitas informações sobre a imigração alemã e a genealogia de famílias alemãs no Brasil.


Além disso, o Instituto publica há 55 anos o seu Anuário, que é hoje considerado uma das mais importantes revistas sobre estudos teuto-brasileiros.


A publicação é feita todos os anos, com lançamento em novembro, e contém matérias em alemão e em português. Para quem estiver interessado, pode inscrever-se por meio do diretoria (q1mmiiusstaden.org.br para receber seu exemplar gratuitamente.


Eckhard E. Kupfer 9.10.2007



Por Eckhard E. Kupfer

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