Uma viagem entre o Rio e Petrpolis em 1883

Nilo Franck

Geral

04/10/17 - 14:55

Apresentao:


O segundo Artigo deste ms de Fevereiro, trata de outro relato de Carl von Koseritz em 1883, s que desta vez entre o Rio e Petrpolis. Trata-se de um texto interessante, pois esta viagem foi feita pouco tempo depois da linha entre Raiz da Serra e Petrpolis ser inaugurada, sendo que ele ainda percorreu um trecho da Estrada de Ferro Mau. Carl von Koseritz era um imigrante alemo, residente no Rio Grande do Sul e que por um curto espao de tempo chegou a morar no Rio de Janeiro. Em meados da dcada de 1850 veio a se tornar jornalista, tendo lanado o seu grande jornal em 1864: "Koseritz Deutsche Zeitung", onde em 1883 ele publica o relato de sua viagem. Em 1885, este texto, juntamente com outros veio a ser publicado em livro na Alemanha, com o ttulo de "Bilder aus Brasilien", que foi mais tarde traduzido e publicado no Brasil com o ttulo de "Imagens do Brasil".


Sem dvida um belssimo texto de Carl von Koseritz, que tambm fez um fantstico relato de uma viagem entre o Rio e So Paulo de Trem em 1883. A segunda parte deste Artigo, um interessantssimo relato de uma viagem entre o Rio e Petrpolis, s que em 1963, cerca de 80 anos depois, pouco tempo antes do trajeto ser erradicado. com grande felicidade que compartilho este texto com vocs, para que vocs possam viajar nos trilhos da memria...


Christoffer R.

Webmaster - ANPF



Fevereiro de 2004 - N. 16

Textos de Carl von Koseritz e R.E. Jones



O Sesquicentenrio da Ferrovia no Brasil - IV

Viagens entre o Rio e Petrpolis




2003-2004 - 150 Anos da Ferrovia no Brasil



Uma viagem entre o Rio e Petrpolis em 1883

Texto de Carl von Koseritz

A 8 deste ms pelas 3 horas da tarde, achava-me, com o amigo Jansen, a bordo do Vapor que conduz os passageiros atravs da baa at Mau. Eu tinha audincia com o Imperador em Petrpolis e, com isto, poderia conhecer a famosa residncia de vero da Crte, Tusculum (Lugar de vilegiatura, para os ricos da antiga Roma) da aristocracia local e retiro do nosso mundo diplomtico. Os navios so do sistema Ferry, muito amplos e providos de boas comodidades; a nica diferena que eles possuem refeitrio e uma excelente cozinha. Parte-se da Prainha, e toma-se a passagem at Petrpolis. O senhor Lucas, autntico nativo da Mosela, que reside em Petrpolis desde 1846, onde famoso como cozinheiro e guia de estrangeiros, assumiu da forma a mais amvel o cuidado das nossas bagagens e eu pude me entregar completamente ao gozo do soberbo panorama oferecido pelo Porto do Rio. nossa direita estavam, no alto do morro, o Convento dos Beneditinos, a Ilha das Cobras com as suas docas e estaleiros, o grande Arsenal da Marinha, com suas numerosas Oficinas; esquerda os navios mercantes, no chamado poo, e, diante de ns, os gigantescos vapores das linhas transatlnticas. Ali se achava, por exemplo, o Gironde, pronto para partir e no era sem uma certa tristeza que eu via o palcio flutuante que, em menos de um ms, poderia conduzir-me clara polidez da Europa e os braos de alguns entes caros de que j me encontro afastado h 33 anos, espao de uma vida humana. Mas isto no adianta e eu j aprendi a declinar a palavra pacincia em todos os seus casos. Passemos, porem, diante do Gironde e abandonemos as idias as idias tristes; o homem pertence ao momento e este nos conduz a Petrpolis, e residncia do Imperador.




Acima podemos ver um barco atracado no Porto Mau em ano desconhecido, provavelmente na poca da Estrada de Ferro Leopoldina. direita, podemos ver um trem estacionado, e grande movimentao de passageiros. Foto: (?). Abaixo, vemos o mesmo Porto Mau, s que j desativado, sendo iniciado o lento processo de degradao que continua at os dias atuais. Ao fundo, esquerda do cais, podemos ver a Estao de Guia de Pacobaba. Esta foto provavelmente foi tomada entre a dcada de 50 e 60. Foto da Coleo de Alfredo Ferreira Rodrigues, de Pelotas-RS.





Fabricada em 1852 na cidade de Manchester, Inglaterra, a "Baroneza" funcionou na Estrada de Ferro Mau at ser oferecida ao Governo Imperial pela Companhia Estrada de Ferro Prncipe do Gro-Par em 18 de Fevereiro de 1884. Foto publicada no Catlogo do Centro de Preservao Ferroviria do Rio de Janeiro/Engenho de Dentro/1983/Preserve/RFFSA.

A viagem pela baa linda; as ilhas do Governador, Paquet e todas as demais oferecem aos olhos belssimos cenrios, em contnuo movimento. Os ltimos momentos da travessia foram perdidos, para mim, no que diz respeito vista, pois o amigo Jansen, com apetite devorador, reclamou peixes e outras miudezas, que nos foram servidas realmente na melhor forma. Ainda no tnhamos engolido o ltimo bocado e j estvamos chegando ao pequeno Porto de Mau, de onde a Primeira Estrada de Ferro construda no Brasil, (que tem o nome do seu fundador, o Visconde de Mau), nos devia conduzir at Raiz da Serra, exatamente em baixo da escarpada parede rochosa da Serra dos rgos, em cujo plat se encontra Petrpolis. A Estrada excelente; os trilhos se acham sobre dormentes de ferro e viaja-se como numa cadeira de balano. Os vages so grandes e largos, muito cmodos; tudo confortvel, e a velocidade da viagem surpreende, quando se est habituado ridicularia da nossa Estrada Leopoldense. Em grande velocidade atravessamos a parte baixa, pantanosa e insalubre, onde grassa sempre a febre palustre e logo entramos na estao de Iraj (Engano do Autor. A linha que ia de Mau Raiz da Serra no passava por Iraj), de onde, em cerca de 15 minutos se vai simptica aldeia de Raiz da Serra.



Aqui temos uma Locomotiva da Estrada de Ferro Prncipe do Gro Par, construda para funcionar no sistema de Cremalheira Riggenback, entre a Raiz da Serra da Estrela e Petrpolis. Foto: (?)

Devo acentuar que no foi sem uma sensao de medo que divisei a negra parede montanhosa, alta de 800 metros, que se elevava abruptamente, e cujos cumes estavam coroados de nuvens. E ns devamos subir, por estrada de ferro, at l em cima, no meio das nuvens. Eu tinha uma certa dvida sobre se chegaramos com os ossos completos l no alto dos morros, naquela Cidade de Nuvens... (Expresso de duplo sentido. Em alemo Cidade de Nuvens quer dizer utopia) L estava, contudo o trem e centenas de passageiros se ajuntaram nos grandes e elegantes vages, com duas ordens de assentos duplos, segundo o sistema americano.


O que os outros podem, tambm ns podemos, e, assim, logo nos encontramos muito comodamente instalados em um vago de primeira classe. Pouco depois o monstro da locomotiva comeou a soprar e fazer barulho, lanou um estridente apito e foi morro acima, sempre em ladeiras de 15 por cento. No entanto esta colossal subida era dominada por uma mquina, (que era das mais fortes), no com facilidade, mas, em todo caso, era dominada. As mquinas ficam atrs dos trens e os empurram serra acima com fora gigantesca, sustentadas por cremalheiras e rodas denteadas. E agora subimos sem cessar: rochedos selvagens, florestas escuras, grandes precipcios nos cercam; mas o nosso trem progride sempre e vence todos os obstculos. Sbito abre-se para ns uma bela vista sobre o vale onde fica a Raiz da Serra. Ao nosso lado, freqentemente cortada pela estrada de ferro, corre em curvas caprichosas a Estrada de Rodagem Unio e Indstria, pela qual se fazia antigamente o trfego por diligncias, nico existente para Petrpolis. Tambm esta Estrada, que vai at Entre-Rios, uma verdadeira obra de arte e custou milhes; antigamente ela foi uma espcie de maravilha do mundo para o Brasil, mas hoje desaparece ao lado do poderoso trabalho do caminho de ferro, que o sr. Taaffe construiu como empreiteiro, depois de vencer enormes dificuldades.



Um trem subindo a Serra rumo a Petrpolis, composto da Locomotiva do sistema Cremalheira, de N. 13 com dois Carros de passageiros. Foto publicada no Livro "O Vapor nas Ferrovias do Brasil", de Bencio Guimares. Coleo: Manoel Marcos Monachesi. Cortesia: Jorge Alves Ferreira Jr., Juiz de Fora-MG.

No meio da subida se encontra a antiga fbrica de papel do baro de Capanema, outra empresa abandonada. Est lindamente situada, e atrs dela se levantam os rochedos dos rgos em plena nudez, o que no inconveniente para um rochedo. E a mquina geme cada vez mais alto e cada vez mais longe se esgueira o trem pelas montanhas acima, por entre os gigantescos rochedos. Cada vez mais se aproximavam os cumes dos montes, que antes me pareciam inatingveis e cada vez mais perto chegvamos ns do manto de nuvens. Os precipcios dos dois lados estavam mais negros, selvagens torrentes de montanha saltaram em baixo sobre as pedras: um cenrio majestoso. Finalmente chegamos Cidade das Nuvens, isto , no alto da serra e no meio de uma nvoa que no nos deixava ver um palmo adiante do nariz. O caminho vai agora em nvel, o Trem corre mais depressa e a Mquina geme menos alto. De repente, um apito: estamos na Vila Teresa, isto , chegamos ao Palatinado. A desatrelamos, ou melhor, a mquina que nos empurrou tinha cumprido o seu dever e podia se afastar; foi ligada uma outra na frente que nos fez seguir viagem a toda velocidade. Diante de ns se estendia o bonito vale do Palatinado, com a suas casas de colonos. Louras crianas brincavam diante delas, carros alemes conduziam frutas, mulheres alems voltavam do trabalho. Senti-me em casa. Sos os meus bravos camponeses do Rio Grande, pensei de mim para comigo e gritei-lhes do trem um boa parte! Mas j est tocando o sino: chegamos Estao da Cidade Imperial e saltamos. Esta uma verdadeira Cidade Imperial, uma cidade de palcios... Uma populao elegante se acotovela na Estao; ligeiros cabs, puxados por cavalos de raa, so guiados por senhoras; esbeltos cavaleiros caracolam sobre lindos meio-sangues, seguidos por servidores agaloados. Mais adiante est o Carro Imperial de seis cavalos. Nele se encontram o Imperador e a sua famlia.


Mas j escurece, e no nos resta tempo para ver tudo. Tomamos um carro e partimos rapidamente para o grande Hotel Bragana (Hoje desaparecido. Era situado na antiga rua do Imperador, atualmente 15 de Novembro), onde reservamos quarto e, em seguida, nos apressamos em ir jantar com o Comendador Frederico Roxo, em cuja casa morava o genro de Jansen e onde estvamos sendo esperados. Um finssimo jantar, um servio brilhante, uma conversa cheia de esprito, - corao, que mais queres?


Assim passaram rapidamente as horas, e j eram as 11 quando subimos no carro e voltamos para o hotel, onde procuramos a nossa cama, afim de nos repousarmos para as dores e alegrias do dia seguinte.


Rio, 10 de Maio de 1883




Foto da Estao de Petrpolis. interessante citar que o Imperador, D. Pedro II, s 5 e meia da tarde, ia, de carro, at a Estao com sua comitiva observar a chegada do Trem. L, ficava parada a sua carruagem, at que chegasse o comboio. Era comum na poca, ele fazer esse passeio at Estrada de Ferro todas as tardes quando ele estava em Petrpolis. Com a Famlia (Imperatriz, Princesa Isabel, Conde D'Eu, netos), quando fazia um bom tempo; sem ela, quando chovia. Foto do Arquivo Histrico do Museu Imperial, publicada na Edio Especial da Tribuna de Petrpolis 100 anos (1902 - 2002). Coleo: Manoel Marcos Monachesi. Cortesia: Jorge Alves Ferreira Jr., Juiz de Fora-MG.

Na manh seguinte (Dia ?) tomei ainda (a 10 R) um banho de chuveiro magnificamente refrescante, em seguida tomamos caf e tocamos para a Estao. No carro encontrei Quintino Bocaiva, meu velho colega, o prncipe dos jornalistas brasileiros, com o qual me tenho tido de haver vrias vezes, em boas e ms circunstncias. Alegramo-nos ambos de, afinal, nos podermos conhecer pessoalmente, tomamos juntos um coup, e logo nos perdemos numa conversa sobre as condies locais da imprensa, que so, alis, bastante tristes. Vamos novamente Serra abaixo. Em Vila-Teresa encontramos, outra vez, o monstro ofegante, a Locomotiva de montanha, que, na viagem de descida, em vez de empurrar, apia, e impede, tanto quanto necessrio, a marcha do Trem. Na verdade no nenhuma viagem tranqilizante, mas desde Janeiro que ela feita diariamente por duas vezes, sem qualquer acidente. Da a pouco estvamos de novo em Raiz da Serra, deixando atrs de ns a escarpada parede de montanhas. Ainda uma curta viagem pela Estrada de Ferro Mau, e o vapor nos recolheu novamente, para nos conduzir ao Rio, cujos contornos j se mostravam, diante de ns, por entre a nvoa. Estava de novo quente, transpirava-se apesar da brisa marinha, depois de termos estado em Petrpolis a 10 R. Como eu devia ir ao Ministrio depois da nossa chegada, almoamos a bordo, alis, muito satisfatoriamente. Depois do almoo entretive-me, ainda, um pouco, com os Srs. Kinglelhofer, Quintino Bocaiva e o mordomo do Imperador, Conselheiro Archer e, dentro em pouco, desembarcamos na Prainha. O Rio nos recebia com o seu mau cheiro, particularmente sensvel naquela parte suja da cidade. Estavam acabados os belos dias de Aranjuez-Petrpolis....


Rio, 12 de Maio de 1883




sabido que a viagem de ida at Petrpolis, foi feita no dia 08 de Maio de 1883, mas a data da volta muito imprecisa. Provavelmente se deu entre o dia 10 e 12 de Maio.





Locomotivas do sistema Cremalheira estacionadas no Ptio de Inhomirim, onde se iniciava o trecho de Serra da antiga Estrada de Ferro Prncipe do Gro-Par. Foto do Arquivo do Preserfe, publicada no Livro "O Vapor nas Ferrovias do Brasil", de Bencio Guimares. Coleo: Manoel Marcos Monachesi. Cortesia: Jorge Alves Ferreira Jr., Juiz de Fora-MG.




Quem foi Carl von Koseritz


Carl von Koseritz nasceu em Dessau, na Alemanha, em 1830 e faleceu repentinamente, no Rio Grande do Sul, a 30 de Maio de 1890. Deixando pais e irmos na terra natal, partiu Koseritz para o Brasil, com apenas 21 anos de idade, engajado na qualidade de canhoneiro do 2. Regimento de Artilharia, na tropa mercenria organizada por Sebastio do Rgo Barros, para o servio do Imprio. Passou, com seus companheiros, alguns dias no Rio, na caserna da Praia Vermelha, hoje desaparecida, e embarcou em seguida, para o Sul, de onde s deveria voltar 32 anos depois, j transformado na principal personalidade da colnia alem e num jornalista e poltico que desfrutava de grande prestgio, mesmo fora dos crculos alemes. A viagem para o Sul foi pssima, e o velho barco em que iam os rapazes quase se perde nos baixios traioeiros da costa. Mas a nova ptria que to hostilmente os recebia dentro em breve seria, para Koseritz, to amada quanto a velha, que deixara mortificado de saudades. Com efeito o seu amor pelo Brasil foi sincero e grande e transparece claramente nas pginas escritas em seu livro, apesar da crtica, por vezes cruel, que defere contra os homens e as coisas do Imprio.




FONTES BIBLIOGRFICAS


KOSERITZ, Carl von. Imagens do Brasil. Traduo de Afonso Arinos de Mello Franco. 1941. Biblioteca Histrica Brasileira, Livraria Martins Editora. Texto Original "Bilder aus Brasilien", editado na Alemanha em 1885. (Transcrio)

GUIMARES, BENCIO. O Vapor nas Ferrovias do Brasil. Editora Grfica Jornal da Cidade Ltda. Petrpolis-RJ, 1993.

SIQUEIRA, Edmundo. Resumo Histrico de The Leopoldina Railway Co. Ltd.

Tribuna de Petrpolis. Edio Especial de 100 anos (1902 - 2002).



Uma viagem entre o Rio e Petrpolis em 1963

Texto de R.E. Jones


medida que se penetra navegando na esplndida Baa do Rio de Janeiro, dependendo da claridade do dia, voc ver a oeste o que lhe parece um alto banco de nuvem ou o que de fato existe - uma imensa cordilheira de montanhas, cuja altitude varia de 2.100 a 2.400 metros. Essas montanhas fazem parte da Serra do Mar que se alonga paralelamente costa brasileira, numa extenso de 500km, e avana para o interior cerca de 25 a 80km. Isto representa a maior barreira ao desenvolvimento das comunicaes com o interior do pas - o planalto produtor de caf do Estado de So Paulo, o grande Estado de Minas Gerais, com sua produo de minerais, e o legendrio Estado de Mato Grosso.


Este desafio foi vencido por algumas notveis Estradas de Ferro, construdas por engenheiros (no caso desta estrada, britnicos) que fizeram o uso de vrios dispositivos destinados a ajudar mquinas a vapor a subir caminhos escarpados em lugares montanhosos. Este artigo descreve uma recente visita a uma dessas linhas, a Linha de Cremalheira do Rio a Petrpolis, da Leopoldina.




Aqui vemos um Trem rumando para Petrpolis a poucas centenas de metros da Estao Baro de Mau, no Rio de Janeiro. A ligao ferroviria entre a Cidade do Rio de Janeiro, e Vila Inhomirim, na Raiz da Serra de Petrpolis, se deu pela Estrada de Ferro do Norte (No confundir com a Companhia So Paulo e Rio de Janeiro, chamada popularmente de EF do Norte). Com a construo desta linha, o itinerrio entre a Prainha (Porto do Rio), Guia de Pacobaba (Porto Mau) e Vila Inhomirim, foi perdendo sua importncia. A composio da foto tracionada pela Locomotiva de N. 339, uma do ltimo grupo de locomotivas a Vapor comprada pela Leopoldina antes de sua nacionalizao. Foto de Charles S. Small, publicada no Brazilian Steam Album, Vol II. Coleo: Manoel Marcos Monachesi. Cortesia: Jorge Alves Ferreira Jr., Juiz de Fora-MG.



Essa linha foi construda para ligar a antiga Capital Federal com a Cidade montanhosa de Petrpolis. Antes de 1889, nos tempos imperiais, a Crte e a antiga capital transferiam-se para Petrpolis durante os meses de vero, e at hoje a maioria dos cariocas faz o mesmo por volta do Natal, quando o calor do Rio torna-se insuportvel. No sem razo que esta linha conhecida como o "Caminho Real" e a Estrada de Ferro que serve, a linha de 1m de bitola, da Leopoldina recebeu o nome da ltima Imperatriz. O grau de autenticidade dessa via pode ser deduzido de uma histria a mim contada por uma carioca verdadeira que, quando era criana, os passageiros costumavam usar guarda-ps brancos para proteger-se contra os flocos de fuligem proveniente da combusto de lenha nas Locomotivas.



Uma composio estacionada em Inhomirim. Foto publicada no Site da Sectran-RJ.




Mas aqueles tempos j se foram e, na manh de sbado, quando fiz a viagem, a lenha havia sido substituda pelo inevitvel Diesel. O trem era o tpico carro suburbano que ia at a Cidade de Inhomirim, situada ao p da Serra, a 50 km do Rio, tendo na cauda um carro com balastre e postigos, que seguia direto para Petrpolis e, como era prprio a um "Caminho Real", era somente de 1. Classe. Entretanto, como a viagem de 60km custava muito barato, o carro estava super lotado.


s 8:35h da manh ns partimos, passando primeiramente pelo famoso trecho do Canal e, em seguida, por uma imensa "favela", nome usado no Rio para designar lugares que h choupanas por habitaes. To logo tnhamos nos distanciado das favelas, entramos em campo aberto, pantanoso, com muita gua estagnada, obviamente um terreno propcio ao surto de febre amarela, pelo que o Brasil j ficou bem conhecido. A viagem continuou em curso normal, e logo chegamos ao entroncamento de Vila Inhomirim. Este era o fim do percurso para o Trem, com exceo do carro para Petrpolis; tendo desembarcado, fiquei maravilhado por encontrar um tesouro de vapor. O trecho de cremalheira para Petrpolis comea aqui, onde havia vrias mquinas de cremalheira 0-4-0 e ainda uma excelente 4-6-0 que manobrava os trens nos desvios. Nenhuma das mquinas tinha a placa do fabricante, embora fosse bvia a origem inglesa das mesmas; suas ventoinhas tinham a marca "J. Stone, London".




Carro de Primeira Classe da Leopoldina, com o Chefe do Trem na "varanda". Foto publicada no Catlogo do Centro de Preservao Ferroviria do Rio de Janeiro/Engenho de Dentro/1983/Preserve/RFFSA.



Enquanto observvamos, um Trem chegou de Niteri, tracionado por outra 4-6-0 e com trs carros para Petrpolis. Depois de uma esplndida srie de manobras, cada mquina procurou um carro, como se fossem vacas reunindo seus bezerros. Quando os carros estavam finalmente preparados, com uma mquina na traseira, uma corda de comunicao foi atirada sobre os mesmos, em toda a sua extenso; com o condutores (no verdadeiro sentido latino da palavra) na plataforma do carro, estvamos prontos para o sinal de partida. Assim, seguimos em frente os dois trens (cada um composto de uma mquina levando dois carros) de macha--r e com cerca de 1km de distncia entre cada, lanando grandes quantidades de fumaa e vapor, no melhor estilo.


Os arredores eram imensamente dramticos, com grandes montanhas e picos erguendo-se por toda parte. Muitas dessas vertentes eram to arredondadas e ridas como o famoso Po de Acar do Rio, ao passo que outras, onde o terreno era propcio vegetao, eram cobertas de densa floresta, principalmente por bananeiras em todas as suas vinte ou trinta espcies variando da banana d'gua banana ma, pra e abacaxi. medida que o trem subia a encosta da montanha emitindo sons caractersticos de sua marcha-lenta, permanecamos na plataforma de observao, ficando extasiados diante dos rudos e paisagens, principalmente da interminvel procisso de borboletas magnificamente coloridas, incluindo a ocasional Morpho, com seus 15 a 20 cm de extenso em cada asa.




Em Inhomirim eram formados os trens que rumariam a Petrpolis, que eram compostos geralmente por duas sees de dois carros e uma locomotiva, que seguiam uma aps a outra, com uma certa distncia entre elas. Ao lado vemos um carro de passageiros, e ao fundo vemos a outra seo de um trem, formando ao todo uma composio de 4 carros. Fotografia de 1948, de Charles S. Small, publicada no Brazilian Steam Album, Vol II. Coleo: Manoel Marcos Monachesi. Cortesia: Jorge Alves Ferreira Jr., Juiz de Fora-MG.



No meio da Serra, isto , na metade do caminho que nos leva montanha acima, existem uma Estao e um curto desvio de onde continuamos at o topo da montanha, Alto da Serra, que realmente parte da cidade de Petrpolis; as Locomotivas foram desengatadas, os quatro carros foram conjugados e puxados por mui elegante 4-6-0; seguimos pelos poucos quilmetros que nos restavam percorrer para terminarmos nossa viagem de acesso cidade imperial de Petrpolis. Este trecho da viagem seguiu o antigo mtodo americano de percorrer a rua principal da cidade.




Aqui vemos um Trem em Petrpolis. Lamentavelmente o trecho ente Inhomirim, Petrpolis e Trs Rios foi erradicado em fins de 1964. O Trecho entre o Rio e Inhomirim ainda resiste sendo percorrido por Trens de Subrbio e raros trens de carga da FCA. Foto de Charles S. Small, publicada no Brazilian Steam Album, Vol II. Coleo: Manoel Marcos Monachesi. Cortesia: Jorge Alves Ferreira Jr., Juiz de Fora-MG.



FONTES BIBLIOGRFICAS


HAHMANN, Carlheinz; SMALL, Charles S. Brazilian Stean Album, Volume II, Uper Over The Hill, Rio de Janeiro - So Paulo.

JONES, R. E. Viagens atravs de montanhas do Brasil, Revista Ferroviria - Outubro de 1963. (Transcrio)

SIQUEIRA, Edmundo. Resumo Histrico de The Leopoldina Railway Co. Ltd.



AGRADECIMENTOS


A todos que colaboraram direta e indiretamente com este trabalho, seja com fotos, dados, e at mesmo com a nobre visita ao Site. Um agradecimento especial ao amigos Jorge Ferreira Alves e Manoel Marcos Monachesi de Juiz de Fora, que enviaram as diversas imagens que ilustram estes Artigos.


Copiado de: http://anpf.tempsite.ws/histnostrilhos/historianostrilhos16_fevereiro2004.htm

Ainda no comentado.