Reflexões Culturais sobre os imigrantes de origem germânica no Brasil
Festas populares dos nossos imigrantes

Nilo Franck

Nilo

15/08/16 - 07:00


Fonte da imagem: booking.com


Os nossos imigrantes, oriundos de vários países, tinham na sua bagagem uma riqueza incalculável, desde a língua, a maneira de se vestir, alimentar, festas, costumes, a fé e tradições. Mesmo se tomarmos como base os imigrantes alemães, vamos encontrar uma diversidade muito grande. Os que aqui aportaram vieram de várias regiões da Alemanha. No ano de 1824 a própria Alemanha de hoje nem existia como um país, o que aconteceu somente a partir de 1864. Passando pela literatura dos nossos imigrantes vamos encontrar uma riqueza sem par. Cada região conta momentos peculiares, mesmo nas festas que tenham a mesma fonte de origem. Segundo Arno Sommer no seu livro „Reminiscências“ quando escreve sobre as festas na colônia: Os nossos filhos e netos, ao lerem relatos como este, certamente considerarão a vida na colônia daquela época muito monótona; trabalho e mais trabalho, seis dias por semana; além da preocupação com o bem-estar dos familiares, ainda o compromisso com a Comunidade; enfim, uma vida sem conforto, sem a variedade de diversões de hoje, isto é, sem rádio, sem televisão, sem cinema, sem reuniões danças semanais, sem automóvel ou moto.

Sem toda esta parafernália de hoje, será que não havia alguma diversão?

Inicialmente, o nosso imigrante teve que se adaptar ao clima, aos produtos da terra, a implantação das sementes oriundos do país de origem, ao clima e outras intempéries. Estas dificuldades iniciais forçaram a união de todos para um bem comum. O importante era que havia um ambiente de paz espiritual e de segurança, isto é, sem as atribulações e histerias de hoje. Se não havia tanta variedade de diversões como as de hoje, as mesmas, no entanto, eram autênticas, de maior naturalidade e sem exagero. A diversão coletiva se expressava, por exemplo, em tipos de danças como a „Polonaise“, as quadrilhas e a dança da vassoura. Era considerado uma falta de educação, se num grupo de casais os cavalheiros não dançassem ao menos uma peça com cada senhora do grupo. Exemplo que deveria se seguido pelos grupos folclóricos de hoje.

O baile iniciava com a Polonese (Polonaise) Aufzug, cerimônia de abertura. Com valsas, marchas e polcas o baile continuava. Dançavam igualmente algumas danças folclóricas como: Herr Schmitt, Kreuz-polka, Hacken-Schottisch, Spazier Walzer, Rutsch-polka, Konter, Pressioneria, Siebenschritt, Blaufärber e a Damentur ou Damenwahl (Escolha das damas). Para finalizar o baile, o Kehraus (a dança final ou saideira).


O Amor à Música


Algumas famílias, apreciadoras da música, possuíam um gramofone. Em outras, pai e filhos tocavam instrumentos de música. Formaram-se conjuntos musicais, compostos em geral, por bandoneon, violino e flauta, que animavam as festas de aniversário, batizados e casamentos. O repertório diminuto era compensado pelo ardor com que procuravam animar os convidados, tocando e repetindo as famosas peças da época que todos acompanhavam cantando. A maioria cantada em alemão ou traduzidas como as valsas chorosas da Mariazinha triste (Mariechen sass weinend im Garten), da Noiva do Bandido (Die Räubersbraut), da Floresta da Boêmia (Tief drin im Boehmerwald), as valsas mais alegres (Trink, trink, Brüderlein trink) com a versão para o português; „Estava sentado na praia, tomando maracujá“, a da alegre vida dos ciganos (Lustig ist das Zigeunerleben) a garota polonesa (In einem Polenstätchen) e outras. Os músicos se reuniam para executar estas músicas, chegando a formar até uma grande orquestra. As bandinhas formaram o elemento fundamental na vida social da colônia. Era uma época que a única música das festas era a das bandinhas. Inicialmente somente formada por instrumentos de sopro, acompanhados por instrumentos de percussão, mais tarde adicionados e complementados pelo rabecão, o violino, o acordeão.

Meu pai, levando a sua flauta transversal e as partituras de música erudita, viajava para o interior e se reunia com alguns músicos, que tocavam violino, viola e violoncelo, para executar músicas dos grandes mestres, Bach, Mozart, Beethoven,etc. De dia, se trabalhava na roça, e à noite fazia-se música.

O amor pela música foi grandemente estimulado pelas escolas, onde os mestres, geralmente também dirigentes de coros das comunidades, se esmeravam na formação de coros escolares.

O canto coral foi um dos elos mais importantes na preservação da língua e cultura dos nossos antepassados. Com a criação das ligas de cantores e clubes, os corais tiveram uma grande influência na vida das comunidades principalmente junto às igrejas. Historicamente, podemos dizer quer o canto coral veio junto com os imigrantes. Os pastores evangélicos, em sua absoluta maioria alemães natos, foram os responsáveis pela grande quantidade de cantos que os jovens e velhos, sabiam, na colônia. Principalmente nas escolas da Comunidade „Gemeindeschule“. O valor dado as canções infantis, que ainda hoje são conhecidas: Hänschen Klein (Joãozinho), Kommt ein Vogel (Vem um Passarinho), Die Enten (Os patinhos) Der Bäcker (O Padeiro) etc.


O Kerb


Como não poderia deixar de ser, o Kerb se tornou uma das festas mais importantes dos nossos imigrantes. Kerb, Kirche Einweihfest, Kerchweihfest, Kerchweih, Kerw, Kerb, Kirmes, Kächefest ou outras denominações, nos indicam a festa da inauguração da igreja, do padroeiro, do erguer do templo para cumprir promessas, também como uma festa para conseguir fundos para reformas, pintura, arrumação do cemitério, conservação da casa pastoral, etc. Esta festa chegava a durar uma semana. Hoje se chega a dois ou três dias. A mãe, os filhos, netos e parentes próximos chegavam na sexta-feira, no sábado e domingo para juntos participarem de todo aquele cerimonial místico espiritual. Tudo iniciava com um culto, uma missa, com a participação do coral ou grupo instrumental. Após o ato cerimonial, a comunidade, acompanhada pela bandinha, fazia o trajeto da igreja até o clube. Segue-se então o baile, acompanhado pelos quitutes da cozinha regional. No outro dia os parentes se reuniam para juntos passarem o dia na casa, de preferência, da vovó, para um Nachkerb ou Fresskerb regado ao café e chá. Serviam-se o Streusselkuchen (cuca) com Wurst (Linguiça), Schweinebraten (assado de porco), Meldoss (doce da farinha de trigo), Stergdoss (doce de polvilho), bebidas para as crianças “gasosa“ e a conhecida Spritzbier (cerveja caseira) para os mais adultos. Algumas alternativas locais e regionais, que se adaptaram, podem ser encontradas por todas as regiões de preservação da cultura alemã. A faxina na casa e os preparativos para o Kerb, sempre fazem parte desta grande festa, que tem também um sentido; a união familiar.

O Kerb era tão importante que as costureiras começavam a ter mais trabalho. Para as moças, significava um vestido novo, quando não dois ou três, um para cada noite. Para os rapazes calças novas. O sapato era coisa rara. Os mesmos eram levados até o local do evento numa sacola ou debaixo do braço.

Na verdade, duas semanas antes, começava-se a sentir o espírito do Kerb. Havia um ar de satisfação e otimismo. Era a festa mais esperada do ano.

O Kerb também trazia uma faxina geral na casa. Cortinas eram lavadas. O assoalho era escovado cuidadosamente. No meio da semana começavam os quitutes; sobremesa, cucas tortas o Sauekraut, chucrute, etc. Como não havia luz elétrica na maioria das casas o refrigerador era totalmente inexistente. As bebidas eram colocadas num balde e dependuradas no poço cuja água era sempre fresca.

Kirchweihtanz (dança da inauguração da igreja). Em muitas localidades a inauguração da igreja se relacionava ao colher do fruto espiritual. Relacionando a inauguração da igreja com a festa da colheita. Por este motivo, muitas danças da colheita fazem parte do Kerb: Räubertanz (dança do ladrão), apresentada em duas filas, executando uma corrente, com a sobra de um rapaz, que no final não consegue roubar uma moça. O Siebensprung com símbolo bíblico relacionados com o número 7. Canções e danças que relatam a vida do agricultor: Es fuhr ein Bauer ins Heu, As danças cantadas, normalmente, apresentam uma coreografia simples, que valoriza mais o texto cantado tendo como centro o Kirmeskranz (a coroa da quermesse). Jäger-Quadrille, Goldaper Kirmestanz (Prússia oriental). O Bändertanz (como louvor a natureza) também pode fazer parte, dependendo sempre da região de origem. Na Áustria encontramos o Lindentanz (Dança das tílias). Uma procissão „der Kirchtagsumzug“ também faz parte do dia da igreja na Áustria e da Alemanha, cada qual com características próprias. Durante uma das etapas do Kerb o Kerwa, também acontecem competições que visam animar a festa. Um exemplo: o Kuchenlaufen aonde todos os participantes tem que percorrer uma certa distância para conquistar o prêmio almejado, o Kuchen (o bolo). Bibl. Thelmo Lauro Müller


Danças Folclóricas


Danças pesquisadas no Rio Grande do Sul, até a década de 60.

· Herr Schmidt - Uma das danças folclóricas mais populares entre os nossos imigrantes que aqui aportaram, não importa da região de procedência. Hoje a mesma faz parte do folclore do RGS.

· Huttanz - A dança do chapéu tornou-se uma brincadeira musical divertida. Apresentando algumas alternativas, o chapéu circulava entre os dançarinos. Quando havia interrupção da música, aquele que estava com o chapéu caia fora. No final tínhamos o casal vencedor.

· Besentanz - Besenwalzer - A dança da vassoura tornou-se popular pela sua dinâmica, ao bater a vassoura, todos tinham que trocar de par, o que sobrava, iniciava dançando só com a vassoura. Em algumas regiões, ao permanecer 3 vezes com a vassoura, o penalizado tinha que pagar uma prenda.

· Kranztanz - Dança da Coroa (Casamento) A noiva utiliza uma coroa como símbolo de ser menina. Ao retirar a coroa, que é lançada para o noivo, a moça passa a ser mulher, a esposa. Hoje em dia temos o buquê de flores que é arremessada, para as moças solteiras que esperam um casamento mais imediato. Encontramos também a Dança da Coroa executado debaixo da decoração que está pendurada no teto do salão.

· Mädel wasch dich - (Menina, tome um banho e te arrumas para o baile)

· Kreuzpolka - A polca do toque cruzado tem uma série de alternativas regionais, o que para muitos, considerada difícil.

· Korbtanz - Dança do cesto de flores. Dar o cesto em alguém, tem o sentido de dar o fora. A representação era feita de uma maneira simples e com muito humor. A moça sentava numa cadeira, à direita e a esquerda tinha uma cadeira vaga. Os pretendentes a dança sentavam-se nas cadeiras. A moça passava o cesto para um dos rapazes e escolhia o outro para dançar. Na sequência, o rapaz sentava na cadeira central, e as moças assumiam o papel dos rapazes.

· Polstertanz - Sesseltanz- Stuhltanz (Dança da cadeira) Conhecida universalmente, representa o sentar sobre as cadeiras no momento da interrupção da música. Aquele que não conseguir uma cadeira cai fora. A cada rodada uma cadeira é eliminada. No final sobram uma cadeira e dois participantes. Vencedor é aquele que sentar na cadeira.

· Siebensprung - (Sete saltos) Dança comum encontrada na Europa - pode estar vinculada ao cerimonial da colheita, para torna-la abundante ou ao cortejar dos rapazes, que querem conquistar o seu par. Esta dança era conhecida na década de 1920 em algumas regiões brasileiras. O Siebensprung também era apresentada durante o festa da igreja, com a alternativa progressiva do primeiro ao 7º e do 7º ao primeiro. (13 etapas)

· Zwiefacher - Por ter como ponto forte a mistura do compasso binário e ternário, está dança popular, exige muita concentração, por este motivo a sua popularidade decaiu, deixando de existir entre os imigrantes alemães que chegaram ao Brasil. A popularidade do zwiefacher se mantém viva no sul da Alemanha, Áustria, Suíça e isoladamente em alguns grupos no nosso país.

· Polonaise – Aufzug - (Abertura oficial dos bailes ou festivas) Tendo como uma cerimônia de entrada e início de algumas festas populares, a polonaise faz parte dos costumes dos nossos imigrantes e até faz parte do folclore gaúcho e de outras regiões brasileiras.

· Spazierwalzer - Marschwalzer - (A valsa do passeio, marcha com valsa) Passa a ser um tipo de polonese, com as diferença de que os pares marcham pelo salão e dançam uma valsa, alternando os dois ritmos.

· Rutschpolka (Siebenschritt) - Tem a característica dos sete passos (alemães), carreirinha (gaúcha), o siete passi (italiana).

· Prisioneiro, Conda, Lanzer - Estas danças, não tem uma fonte bem definida. Têm algumas características do norte da Alemanha, as quadrilhas. O lancer deve ter a sua origem em outras culturas.

· Hacke-Schottisch - (o chote do taco e ponta) Esta dança tem as características do norte da Alemanha, Westfália e Pomerânea.

· Heut ist Kerb (Hoje tem Kerb) - Festa da inauguração da igreja ou do patrono. Como dança tinha um sentido mais cênico.

· Blaufärber - (Grün sind alle meine Kleider)

· Mein Hut der hat drei Ecken - (O meu chapéu tem três pontas) Conhecida como uma canção mímica, também recebeu uma coreografia simples como dança.

· König von Rom - (O rei de Roma)

· Krebspolka, Lott ist tot - também era conhecida pelos nossos imigrantes. A primeira conhecida na região dos imigrantes do sul e a segunda do norte da Alemanha.

· Großvater will tanzen ou Großvatertanz - (O vovô quer dançar) Também conhecida como Kehraus, seria a última dança apresentada no final da festa do casamento. Relaciona-se a canção: Und als der Großvater die Großmutter nahm (quando o vovô casou com a vovó) Tem o sentido da união eterna do casal, até que a morte os separe, como os avós o estão fazendo, seguindo um ritual, os pares, passavam pela casa, pelas portas, janelas, pátio, curral, celeiro, passavam pela aldeia, entravam nos restaurantes, etc., um tipo de polonaise. A linha melódica está dividida em duas partes: compasso ternário e binário. Na frente seguiam os músicos, seguidos pelos noivos, o cozinheiro e os convidados. Esta maneira é uma das possibilidades do aproveitamento destas duas melodias.

As características citadas acima refletem a ação recolhida em alguns pontos da colonização alemã no Brasil. Temos a consciência de que, riqueza das peculiaridades encontradas nas regiões pode contribuir muito mais para o engrandecimento da cultura do nosso país, sofreram mutações e se adaptaram a cultura teuto-brasileira, por este motivo já fazem parte da cultural brasileira.

Nos bailes de antigamente, duas características eram preponderantes: a ordem das danças „Tanzordnung, e o mestre-sala „Saal-Meister“. Seguia-se uma ordem pré-estabelecida. No convite para o baile a ordem já constava.

Exemplo: Sylvester-Ball; baile de ano novo.

Ouverture (abertura musical) 1. Polonaise-Polka ou Polonaise-Valsa; 2. Valsa; 3. Mazurca; 4. Quadrilha; 5. Polca das Damas; 6. Valsa; 7. Tyroler (chote, ländler); 8. Havaneria (Habaneira); 9. Quadrilhe; 10. Polca; 11. Valsa; 12. Mazurca; 13. Lanceiros.

Na época de 1922, após a segunda guerra a influência americana começou a interferir no predomínio de origem europeia. Surgem assim o Fox, One Stepp, Rag-Time, Foxtrot e outras danças sul americanas como o Tango. Em muitos salões o Step não era permitido „Step verboten“, por saltar em vez de escorregar e deslizar pelo salão não podia ser considerada como uma dança. Além disso, o pular provocava muita poeira, já que o assoalho não era firme e mantinha um certo molejo, o que não acontece mais nos dias de hoje, época do cimento e do parquê.


Hausbau und Richtfest

Construção da Casa e a festa da cumeeira


A casa no passado tinha outro significado. Na vila, todos participavam da construção da casa, desde as crianças até os mais velhos. Esta casa se tornava na localidade, o primeiro lar de uma família, esta casa pertencia por gerações à mesma família, por este motivo a pedra fundamental era colocada pelo dono da casa, que a trazia para o lugar da construção como também o primeiro prego. A construção começava a se erguida e ao chegar à cumeeira, acontecia a festa de agradecimento a todos os que ajudaram na edificação da casa. No topo da construção se colocava uma pequena árvore enfeitada por fitas ou uma coroa. (Richtkranz). A comida servida durante a festa, dependendo do poder aquisitivo do proprietário, já iniciava com o café da manhã, com pão caseiro, manteiga e algumas marmeladas (Schmier), ao meio dia um almoço com carne, feijão e arroz seguido por uma sobre mesa a base de doce com ovos. A tarde era servido um café com cuca, para as crianças cuca e bolachas. Nas famílias de poucas posses uma sopa de ervilhas ou outros pratos feitos num panelão.

No primeiro domingo, após o ingresso da família, os vizinhos e parentes se faziam presentes para saborear o café da tarde. A entrada festiva era precedida pelo cerimonial de boas vindas, caracterizado pela coroa colocada na entrada da porta e pelo plantio de uma árvore de nozes, por que o mesmo protege a casa contra os raios. Os vizinhos ou amigos faziam um pão que passava pela entrada da casa, acompanhado pelo sal, par proteger a casa contra a fome e de uma boa relação com a futura vizinhança. O Richtfest, a festa da cumeeira, representa uma pedra solidificante para a família e suas futuras gerações. Esta festa ainda continua viva na Europa e em algumas comunidades do interior do nosso país, mesmo que tenha sofrido alterações e os pedreiros assumindo o lugar da comunidade este cerimonial precisa continuar vivo e nas tradições das nossas comunidades. Consta também, nos bastidores dos supersticiosos que a festa da cumeeira traz boa sorte. Indagados sobre o sentido muitos respondem com precisão sobre os boatos que ouviram: „ o dono da construção não quis comemorar a festa da cumeeira e os operários também não deram a devida importância a praxe do mesmo, pregaram um galho de árvore à cumeeira para espantar o espírito mal. O resultado da indiferença não demorou; um operário caiu do madeiramento ao solo e perdeu a vida“. Expressão e crendice mística popular.


Oktoberfest


A mais famosa de todas as festas históricas alemãs é a Oktoberfest (Festa de Outubro, que se realiza anualmente em Munique, Alemanha).

A primeira Festa de Outubro foi comemorada em 1810. Era, então, bem diferente da de hoje. Tudo começou com o rei Max Joseph convidando os cidadãos para uma festa a se realizar na periferia da cidade, quando da celebração das bodas do príncipe Ludwig com a princesa Therese von Sachen-Hidburghausen. O sucesso da festa foi tão grande que a guarda de cavalaria formulou requerimento solicitando que se desse o nome da noiva ao relvado que servira de palco ao evento. A municipalidade de Munique, por sua vez, decidiu que a festa haveria de se repetir a cada ano. E como os muniquenses haviam passado com seus cursos festivos pela residência imperial a caminho da festa, por ocasião do casamento, tornou-se costume a realização de desfiles solenes, de trajes típicos, através de Munique - um espetáculo que, por seu colorido esplendoroso e por sua variedade, inclui a participação de grupos folclóricos procedentes de todas as partes do país. Segundo Schiller: Nos velhos costumes reside um sentido profundo, devemos, portanto, honrá-los. A Oktoberfest, na Alemanha só acontece em Munique. Pela sua dinâmica, hoje pode ser encontrada em muitas partes do mundo. Todas partem do princípio, mas ciaram as suas características próprias. No Brasil, iniciou-se no oeste catarinense, com características próprias, tendo como tema central o beber cerveja e as músicas de bandinhas. Hoje encontramos a Oktoberfest na maioria dos estados do sul do Brasil. As mais conhecidas são: Oktoberfest da Sogipa, Porto Alegre, de Santa Cruz e Igrejinha. Em Santa Catarina, a mais divulgada é a de Blumenau. Esta proliferação teve o seu impulso após a segunda guerra mundial. Com a ocupação americana no sul da Alemanha, os americanos começaram a divulgar a imagem alemã bávara pelo mundo, dando a mesma uma conotação única para a cultura dos alemães.

Durante as festas usam-se trajes típicos ou adaptados ao clima. Na festa vendem-se inúmeros pratos típicos: chucrute, salada de batatas, costelas de porco, pão de centeio, tortas, grelhado, além de cerveja, cachorro quente especial, sorvete, café.

Como diversão: pau-de-sebo, jogo do porquinho, tiro ao alvo, boca de palhaço, argolas, marreta. Tendas que vendem chapéus, aventais, canecões, pescaria, flores, tudo premiado, etc.

Hoje em dia temos a imagem da festa da alegria, da bebida, comida, danças típicas. Sinônimo de festa alemã.

Curiosidades:

Na Oktoberfest de Munique espera-se em torno de sete milhões de pessoas.

94 cabeças de gado são consumidas durante o evento.

97.500 lugares estão à disposição dos visitantes, divididos em 14 espaços. Só no Löwenbräu, 5700 lugares internos e 2800 externos.

Como a festa é popular, não existe o pagamento de ingresso. Junto a mesma também encontramos um parque de diversões, e acontecia uma exposição de animais e também um corrida de cavalos.


Schützenfest


As festas dos Atiradores (Schützenfeste) são celebradas em todas as partes da Alemanha. São festas municipais que fazem lembrar, em muitos casos, acontecimentos históricos. Segundo Narliese Kleindbing: a festa do rei do tiro tem origem na Alemanha, nos séculos 13 ou 14. Há notícias de que em 1830, na atual cidade de Wilstei, já se faziam presentes os grupos de tiro, cujos dados foram encontrados no Alten Ratsbuch - manuscrito em pergaminho no ano de 1426. Os participantes destes grupos deveriam se ajudar mutuamente, como irmãos cristãos. Cada aldeia tinha um grupo de cidadãos, encarregados da sua defesa, em caso de ataque. Anualmente havia uma festa na qual se escolhia o melhor atirador do grupo de defensores da aldeia o Schützenkönig. Esta tradição veio junto com os nossos imigrantes. Surgindo assim o Schützenvereine (sociedades de tiro ao alvo). Estas sociedades de atiradores tiveram a sua proliferação, no Brasil, junto às comunidades dos imigrantes alemães, principalmente na região do leste catarinense, em Blumenau, Jaraguá do Sul, etc.

Anualmente, após a realização, o que fizer o maior número de pontos ou o ponto mais elevado, é coroado rei. O segundo e o terceiro Cavalheiros (condes em certas localidades) e suas esposas respectivamente, Rainhas e Damas. Colocado em 4º lugar aquele que fizer mais pontos. Durante a festa outras atividades paralelas acontecem, enquanto os atiradores demonstravam as suas qualidades, outros aproveitavam para jogar cartas ou bolão. Em muitas localidades a escolha do rei do bolão juntou-se a escolha do rei do tiro.

No dia marcado, realiza-se o baile de coroação. Um cortejo, seguido pela banda, vai à casa do rei, a fim de conduzi-lo ao salão de festas, onde o Rei e Condes (Cavalheiros) do ano anterior os aguardam.

O novo Rei recebe a faixa (ou talabarte com placas indicativas dos premiados em anos anteriores) das mãos do antecessor. Os cavalheiros recebem as suas medalhas.

O Rei abre o baile com a Polonese. Após, os participantes da festa formam a grande roda, ao centro da qual dançam os Reis, as Rainhas e, em seguida, os Condes com suas Damas.

Finalmente, todos os participantes do baile confraternizam. Como prêmio o Rei do Tiro e os condes recebem fichas para cerveja, que oferecem aos amigos. Fichas que provém das inscrições pagas pelos candidatos ao Rei do Tiro. A prática do tiro também fazia parte da proteção da propriedade dos imigrantes, contra possíveis invasores, ladrões, etc.

A prática do rei do tiro, em muitas localidades, também passou a fazer parte da vida das senhoras, que obedecem aos mesmos critérios de treinamento e acabam escolhendo a sua Rainha do Tiro Schützenkönigin e as suas princesas.

Obs.: A maior festa do tiro acontece anualmente no mês de junho e julho na cidade de Hannover, quando o duque Erich I, também chamado de o mais velho, deu o privilégio aos hannoveranos de festejar anualmente esta festa, desde 1529. Não esperavam em sonho, nem os grandes proprietários e aos que lançaram a pedra fundamental que a Schützenfest que a festa chegasse a ser a maior do mundo. Participam da mesma mais de dois milhões de visitantes. Apontamentos sobre a festa já foram citados por volta de 1468. As regras, mais definitivas, a partir de 1710. Como a participação não exigia grupos formados e trajando uma roupa característica, em 1837, novas normas foram elaboradas para a apresentação das sociedades de tiro. Por este motivo o ano de 1837 pode ser considerado como o nascimento dos clubes de tiro.


Das Erntefest und Entedankfest


Das Erntefest (a festa da colheita), uma das mais importantes festas encontradas na maioria dos países do mundo, também tem o seu ponto marcante no Brasil. No sul da Alemanha, era chamada de Sichelhenke (gancho da foice) porque a partir da colheita a foice deixará de ser usada até a próxima colheita. A colheita é o ponto mais importante das atividades anuais de um colono. Em Meckenburg, norte da Alemanha, os trabalhadores, principalmente as mulheres, vestiam roupas novas ou limpas. Na Floresta Negra, no mínimo, vestiam uma blusa nova ou lavada recentemente. Na Lüneburger Heide (Charneca de Lüneburgo) o último feixe de grãos como um símbolo de agradecimento permanecia no campo. Estes são alguns exemplos da seriedade mística apresentada pelos que habitam e valorizam o solo que lhes dá o sustento. A colheita sempre esteve vinculada ao tempo de plantar, regar e colher. Somente a colheita, colocando o seu produto de grãos em segurança, garantia um tempo de fartura. Também a colheita do pasto para os animais, ração alimentar para a época do inverno, recebe a atenção dos que se organizam para a entre safra. Enfeitar um dos carros com uma coroa, utilizando a palha, o feno, demonstrava um sentindo de agradecimento pela colheita. Após a colheita, empregados e proprietários, se reuniam ao ar livre ou no galpão, para festejar. Os músicos a tocar, o povo a dançar e a degustar os pratos especialmente preparados para este dia. A dança do Hahnenbraut (noiva do galo) simbolizava o comprometimento dos noivos após a árdua jornada.

No mundo cristão a festa de agradecimento pela colheita (Erntedankfest) foi aceita e incluída no calendário que acontece anualmente, na maioria das vezes, no domingo de São Miguel (final de Setembro) durante uma cerimônia religiosa, a oferta de alimentos, dos produtos artesanais como agradecimento, colocado junto ao altar. Representa o respeito por todos os produtos que servem para o sustento da família, agradecendo pelo alimento diário que está sobre a nossa mesa. Nos Estados Unidos, a festa de agradecimento (Endtedankfest "Thanksgiving") reporta-se a primeira colheita dos pioneiros da colonização daquele país.


Canto Coral


Uma das mais importantes manifestações culturais dos imigrantes alemães. Junto com a língua materna, o canto popular tornou-se um elo com a terra dos antepassados. Relembrando um passado, um saudosismo, um mundo diferente. Cantava-se também para incentivar a auto estima, criar forças, para suportar a sobrevivência inicial, para entender o prometido que ficou inicialmente tão distante e o isolamento político e social. Abandonados, em muitos a casos, a própria sorte, a religião, o cantar e o lazer uniram os imigrantes. Surgem também os clubes culturais que se dedicam ao Canto coral. Formaram-se assim: os corais masculinos, mistos, femininos e infantis. A atividade motivadora para o interesse pelo canto coral chegou através dos imigrantes alemães ao Brasil.


Schlachtfest (a festa da matança do porco)

Wer sein Schwein hungern läßt, bekommt schlechte Schinken (Bauernregel)

Quem deixa o seu porco passar fome terá um presunto de má qualidade (Regra do colono)


A matança do porco sempre termina com o triste fim para o porco, que é frito, assado, para o despertar alegre dos consumidores que festejam comilança e acompanhado de bebida. Toda a vizinhança é convidada para a matança. O vizinho que não consegue estar presente também não vai ser esquecido e receberá algumas doações. Na Baviera e em outros estados têm o seu início no sábado com uma sopa seguida de algumas partes do porco. A meia noite segue-se a linguiça morcilha e de fígado. No domingo ao meio dia é servido o porco assado e a noite um Surfleisch (carne de panela) com defumados. O chucrute não pode faltar, mesmo que não tenha sua origem alemã. Já na antiguidade tinha-se o gosto pelo repolho e servia também com remédio. Por toda a Europa como planta medicinal.

Na localidade de Schweinfurt existe o prato “Schlachtplatte”, uma diversão diferente. Pessoas reúnem-se ao redor da mesa de madeira. Pequenas saliências, buracos sobre a mesa servem para colocar o sal e outros temperos e o copo para as bebidas alcoólicas. O proprietário do local derrama sobre a mesa uma bacia repleta de carne cozida “Wellfleisch” que fica ao alcance de todos, juntando-se ao paladar o repolho ou chucrute com purê de batatinha. Cada um serve-se com uma porção destinada a sua gula. O comer sem prato dá um grande prazer. Seguem-se, seguindo uma ordem, as sete partes do porco que são devoradas sobre a mesa até que a chegada o rabo do animal que está pendurado com uma agulha. “Ele está pendurado” - “Er hängt” até que um pobre coitado descobre que o rabo está preso nele. Ação de um vivaldino e habilidoso que conseguiu a proeza, ato que se torna uma diversão para pegar os desligados e distraídos.

Não só frito e cozido o porco tem o seu significado. O porquinho também é o símbolo da sorte. A expressão: “Ele teve sorte” - “Schwein gehabt hat” é muito popular, que nem sempre exige que tenhamos que matar e comer o pobre animal. A matança do porco passa a ser uma atividade com cunho social, que reúne todos os amigos e a vizinhança. Hoje, em muitos lugares, é servida a Schlachtplatte, em uma tabuleta de madeira, sobre a qual são colocados os frios (salames de vários tipos, defumados, queijos, etc.).


Por: BENO HEUMANN - Associação Cultural Gramado

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